“Arte de me manter viva”, diz Linn da Quebrada sobre relevância de “Pajubá”

Linn da Quebrada é a convidada do podcast Aos Cubos nessa reta final da segunda temporada. Ela é a atração do programa de número 44, que foi ao ar na última terça-feira (05.12). Para ela, ser artista é criar sobre o seu corpo, sua estética, principalmente para falar abertamente dos seus afetos, desejos, sexualidade e vontades. “Minha arte não  tem a ver com o palco. E não é estar no palco, lançar um disco, que me faz artista. Para mim, a arte que acho mais importante, que mais tem relevancia, é de se manter viva, principalmetne vinda dessas travestis, ouvindo suas histórias, que passam anônimas”. Ao se lançar como cantora, ela conseguiu se organizar no seu caos, já que vinha estudando o corpo como voz, além do teatro, dança e performance. Era uma espécie de magia acontecendo.

“Essas músicas, eu não escrevia, só cantava, ficava inventando. Elas funcionavam pra mim. Eram coisas que eu queria cantar, mas principalmente coisas que precisava ouvir. Durante a gravação, fiquei desesperada. Pensei: ‘por que inventei de fazer um disco?’. Agora, depois que lançou, parece que as coisas fizeram mais sentido. Parece que a sonoridade mudou, mas são coisas que me deixam ainda mais feliz”, diz ela ao enumerar artistas que convive e fazem parte dessa construção, como Liniker (da banda com os Caramelows), Mulher Pepita e Gloria Groove.

Ela tem se cansado a falar um pouco de si e de sua relação com religião. Mas, aqui, não deixou nada de fora. Falou desde o processo de criação do álbum recém-lançado e de seu maior erro nesse período: deixar pra produzir o álbum somente depois de ter arrecadado o dinheiro via financiamento coletivo, que deu em torno de dois meses. “A minha grande sacada são as relações. Gosto do show porque estabeleço pontes. Minha dificuldade em gravar tinha a ver com o medo de eternizar e depois querer mudar”.

Ela sabe que é um exemplo por estar na linha de frente, e crê que esse momento é de transformação e construção de um futuro melhor para trans e travestis. ”Vou continuar com a Linn enquanto precisar, até ter a coragem de saber quando contracenar. Porque nem sempre é estar nos holofotes, mas saber quando entrar e sair de cena, fazer outra cena. E contribuir com outros projetos, também”.

Linn fala de uma incerteza na música, mas permeará outras plataformas, que pode ser no teatro ou outros movimentos. “Esse é um lugar importante de a gente não perpetuar os mitos, que é o que tem sido feito até hoje. Tradição mantém as histórias, mantém o foco nas mesmas coisas e o que eterniza sao as imagens e corpos iguais”.

As fotos do encarte do disco foram feitas na Casa Nem, exemplo de acolhimento no Rio de Janeiro. “Eu ja tinha ido fazer show, foi a primeira vez que tinham muitas travestis em um show meu. Me chamou muito a atenção. Lembro de subir e conhecer a casa, parecia cena de um filme, ver o beco do rato lá embaixo e a Indianara (Siqueira, uma das responsáveis pelo espaço) disse: ‘Uma vez por mes, o Beco do Rato é teu’. Aquilo me chamou a atenção”.

Segundo ela, aquele dia foi marcante para ela pelos corpos habitando aquele espaco. “Pensei: ‘essas são pessoas que quero trocar, me comunicar’. Estava mais feliz por aquelas pessoas gostarem do que estava fazendo. Não faria sentido, para mim, fazer uma estética de algo que fosse só eu. Sinto que estou falando a partir de mim, mas trato de memória, de uma historia que foi ignorada há tanto tempo (a das travestis). Não conseguiria fazer um disco onde só tivesse a minha imagem falando de beleza, meio egocêntrica. Para mim faz mais sentido, tanto elas como eu, fazer parte desse contexto”.

Ela falou ainda sobre a cumplicidade com Jup do Bairro, da tour de “Pajubá”, da responsabilidade de ter um disco feito com dinheiro dos fãs, além do “Meu Corpo é Político”, de Alice Riff, do documentário que conta a trajetória de militantes LGBTQIA, Linn, inclusive – estreou em 30 de novembro.


Participam desta edição do podcast: André Aloi, Victor Albuquerque e Cairo Braga, que também editou o programa. Quer falar com a gente? Já sabe! Escreve para podcast@aoscubos.com 

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