As Aventuras de Tintim une definitivamente live-action e animação

Estreia nessa sexta em todo o Brasil (inclusive nas salas iMax) o novo filme de Steven Spielberg, a ambiciosa adaptação para os cinemas de três histórias do personagem clássico das histórias em quadrinhos Tintim. Além de ser entretenimento de primeira (o primeiro filme que não é da Pixar a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Animação desde que a categoria foi criada), o filme dá um passo além no método de captura de movimentos e abre muitas possibilidades de utilização para essa tecnologia, que já é bem conhecida, mas que nunca tinha sido utilizada numa animação com tanto êxito.

Durante a última década o diretor Robert Zemeckis, responsável por clássicos como a trilogia “De Volta Para o Futuro” e “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, tentou fazer “vingar” a tecnologia da animação por captura de movimentos, onde ao invés de personagens humanos 100% produzidos com computação gráfica (como em “Os Incríveis” da Pixar), temos personagens construídos com base nos dados captados por sensores colocados em atores de “carne e osso”, como os personagens de Tom Hanks em “O Expresso Polar”, de 2004, primeiro filme de Zemeckis usando essa tecnologia.

Apesar de já ser um método aclamado em filmes em live-action como o personagem Sméagol de “O Senhor dos Anéis” ou todos os alieníngenas Na’Vi de “Avatar”, Zemeckis nunca obteve o sucesso esperado com seus filmes. Seguiram-se a “O Expresso Polar”, “Beowulf”, “Os Fantasmas de Scrooge” e sua última tentativa (como produtor), o filme “Marte Precisa de Mães”, que foi um fracasso tão retumbante (custou 150 milhões de dólares e faturou 40) que acabou fechando e falindo definitivamente seu estúdio, o ImageMovers. Mas o que torna o Tintim de Spielberg tão melhor que as tentativas fracassadas de Zemeckis?

Em primeiro lugar, a história: as aventuras de Tintim têm uma narrativa irresistível, bons momentos de humor, e o fato de o personagem já ser aclamado em outra plataforma torna muito mais fácil se relacionar com ele no cinema, indo na contra-mão das histórias água com açúcar dos filmes de Zemeckis (o que também se explica um pouco pelo fato de todos esses filmes dele estarem sob o cabresto da Disney). Em segundo lugar, se afastar das tentativas de tornar os personagens “humanos demais” como nos filmes de Zemeckis, e deixar os cenários absolutamente realistas mas os personagens humanos cartunescos na medida certa.

Isso é essencial porque já é fato conhecido (pela interessantíssima hipótese “Uncanny Valley“) que humanos sentem repulsa de seres muito parecidos mas não idênticos a outros humanos. Por isso é muito mais fácil sentir empatia por uma criatura completamente artificial com atitudes humanas (como o adorável Wall-E), do que pelos bizarrísimos personagens de Tom Hanks em “O Expresso Polar”, a insípida criatura de Angelina Jolie em “Beowulf”, ou até na versão “novinha” de Jeff Bridges no recente “Tron: O Legado”, que passa uma sensação constante de “é-quase-de-verdade-mas-tem-algo-muito-estranho-ali”.

Spielberg ganhou o jogo quando chamou Peter Jackson pra produzir o filme, colocou a WETA Digital (responsável pelos efeitos de “O Senhor dos Anéis”, “King Kong”, e “Planeta dos Macacos: A Origem”) na jogada, e por tabela o ator Andy Serkis que já é mestre em trabalhar com essa técnica, tendo interpretado justamente os personagens Sméagol, King Kong, e o macaco César, “protagonista” de Planeta dos Macacos. Em Tintim, Andy Serkis interpreta o Capitão Haddock, personagem tão cativante que eclipsa o próprio Tintim por vários momentos. E é difícil não se emocionar com a trajetória do personagem, o que explica porque sua interpretação, mesmo “virtual”, esteja em campanha pra concorrer ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Aliás, essa é só uma das questões que essa nova tecnologia levanta: quais as consequências de se fazer uma animação hiper realista como Tintim? Se filmes como “Avatar” já eram praticamente uma animação, não seria o caso de se pensar em criar um novo gênero híbrido entre animação e live-action? Uma animação hiper-realista não “diminui” a animação tradicional? Falando em dinheiro, que é a língua que a indústria entende, Tintim custou 90 milhões de dólares mas, com todas suas extravagâncias visuais (há planos sequência inacreditáveis) teria um custo inimaginável sendo feito em live-action, então a tendência de se criar cenários completamente virtuais é algo que veio pra ficar.

Agora corra para a tela maior que conseguir arranjar (assistir no iMax é sempre uma boa pedida) e confira “As Aventuras de Tintim”. Pense que é um filme do Spielberg, abra seu coração, e possivelmente você sairá de lá tão deslumbrado como o próprio Spielberg parece com as possibilidades dessa nova tecnologia e com sua estreia numa animação.

Talvez você também goste...

1 comentário

  1. Achei fantástica a sua resenha. O conteúdo é simplesmente espetacular. Me deu vontade de ir correndo pros cinemas agora mesmo. Parabéns pela sua enorme criatividade e inteligência. Pode ter certeza que você vai muito longe! Bjos..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *