Bergenfest: as inúmeras vantagens do festival mais tranquilo que já vi

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Vale a pena sair do país pra ver um festival de música? Após minha experiência no festival norueguês Bergenfest e como fã incondicional de música ao vivo eu digo um grande e retumbante sim. Foram tantas as vantagens que eu encontrei, que prefiro descrever nesse post apenas algumas diferenças que vivenciei e que eu ainda me lembro, e você decide quais são vantagens ou desvantagens pra você. Dentre centenas de festivais com line-ups mais ou menos parecidas, é questão de colocar na balança (e no papel) quanto de dinheiro você pode gastar, quais bandas você quer ver mais, e qual festival te dará mais oportunidades de realizar atividades fora dele, já que na minha opinião não vale muito a pena gastar toda sua grana pra perseguir uma line-up dos sonhos e acabar num campo enlameado no meio do nada com um começo de pneumonia, e com uma programação que certamente vai impedir você de ver tudo que quiser.

Felizmente nada disso aconteceu comigo. Após um longo processo de escolha optei por um festival urbano de pequeno/médio porte, com uma line-up mais modesta do que outros festivais que aconteciam na mesma época, mas que proporcionou alguns shows intimistas inesquecíveis e incríveis experiências fora do festival. O Bergenfest acontece num parque/fortaleza medieval na região central de Bergen, segunda maior cidade da Noruega, e o festival por si só já resume bastante qual é o clima da cidade: montanhas repletas de casinhas (atrás dos palcos) que dão direto no mar (atrás do público) onde navios de dez andares passam a poucos metros da grade do festival.

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Com capacidade total pra 6700 pessoas, o Bergenfest tem três palcos: o principal, chamado Plenen, localizado num terreno levemente inclinado que oferece visão privilegiada onde quer que você esteja; o segundo palco chamado Bastionen, rodeado por árvores e pés de jasmim, com capacidade máxima pra 2000 pessoas e cuja lotação máxima é mantida na boa vontade do público e por funcionários que ficam nos acessos contando quantas pessoas entram e saem (e sugerem gentilmente que ninguém mais entre quando o local está “cheio”), e o terceiro e mais extraordinário na minha opinião, o diminuto Magic Mirrors, palco coberto onde eu imagino que não caiba mais que 300 pessoas, coberto por vitrais coloridos e espelhos, digamos, mágicos, que não refletem diretamente a sua imagem nele. É.

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A escalação do Bergenfest nos últimos anos vem misturando figurões do rock com sensações indie, artistas consagrados de soul e jazz e atrações de apelo exclusivamente escandinavo. A sensação geral que tive é que é um festival feito para que as pessoas da região de Bergen, seja quais forem seus gostos musicais, tenham uma amostra do que está acontecendo no mundo sem sair do centro de sua cidade. O festival é pouco amigável pra turistas e “fala” exclusivamente norueguês (nada nele é traduzido para inglês). No entanto não tive problemas me virando com inglês mas isso é uma característica da Escandinávia, todo mundo fala inglês (bem) por lá.

Este ano os quatro dias do Bergenfest tiveram como headliners Nick Cave and the Bad Seeds, Biffy Clyro, Mew (o principal motivo da minha viagem) e Mark Knopfler, ex-vocalista/guitarrista do Dire Straits, e responsável pelo único dia do festival que teve ingressos esgotados. Também passaram por lá Band of Horses, Noah and the Whale, Imagine Dragons, Melody’s Echo Chamber, Lissie, Susanne Sundfor e atrações inusitadas como a Orquestra Britânica de Ukulele e a banda de R&B do Jools Holland.

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A primeira diferença que grita aos ouvidos é a qualidade do som. Tanto nos shows que vi no Bergenfest quanto nos que vi na casa de shows Vega em Copenhagen, parecia que eu estava ouvindo rock ao vivo pela primeira vez. A qualidade de som é tão absurdamente melhor, instrumentos e voz são tão estratosfericamente mais nítidos, que bate um imenso desespero ao pensar em todos os shows com som horrível que assisti durante a vida, sendo que nem os achava tão horríveis assim. É problema no equipamento? Negligência das casas de show ou dos técnicos de som? Por que o som dos shows por aqui é tão terrivelmente pior? Vendo (e ouvindo) o som estourado do Festival Cultura Inglesa no último fim de semana por exemplo, eu que sempre fui tão tranquilo em relação ao som de shows já queria cortar meus pulsos.

A segunda diferença é quanto à organização/segurança. As barreiras que separavam cidade e festival eram irrisórias. A coisa mais próxima de um segurança que vi na frente do palco principal foram dois voluntários (um homem e uma mulher) de no máximo 25 anos que não segurariam nem uma fã maluca do One Direction. Rola uma confiança mútua de te fazer acreditar na humanidade, e havia uma grande galera sem ingresso bem satisfeita em se sentar na beirada do forte medieval e assistir aos shows de longe. Falando de organização espontânea, mesmo nos shows lotados do Bastionen, o segundo palco, ninguém ENCOSTAVA em mim. Os noruegueses têm uma noção muito forte de espaço pessoal, cuja razão perguntei para o meu amigo-de-infância-de-grade Mikael que respondeu: “Você não vai querer encostar num desses noruegueses bêbados”.

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E haja cerveja: não eram vendidas latas avulsas, apenas packs de papelão com 5 copos de Tuborg para consumo individual carregados por uma simpática alcinha. Ha. É a contradição escandinava entre ser viking e ser obcecado por organização, acho. Quando qualquer show acabava, NINGUÉM ficava na frente do palco. As pessoas ou iam para algum dos outros palcos, ou iam beber e comer na elogiadíssima praça de alimentação da qual não provei nada porque, meu Deus, como tudo é absurdamente caro na Noruega. Peguei grade para o show do Mew, headliner e que tocou das 23h à meia-noite num festival que começou às 14h, e foi a coisa mais fácil da minha vida. Ficar esperando parado uma hora por um show é um conceito muito absurdo para o público de lá e eu só não me senti um babaca porque havia mais meia dúzia de fãs do Mew muito felizes em conservarem também um lugar na grade.

Terceira (ou sétima) diferença: se você não gosta de gente filmando e fotografando show, parabéns, encontramos o seu festival! As únicas pessoas que vi usando o celular para fotografar foram as que me viam fazendo isso (desculpa gente) e tiravam discretamente seu celular para tirar uma foto com cara de “Meu Deus, eu posso fazer isso também?”. Também foi “engraçado” ver muitas pessoas distribuindo protetores de ouvido gratuitos e ver muita gente usando – eu guardei o meu pra quando o My Bloody Valentine vier pro Brasil.

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O Bergenfest foi definitivamente a experiência mais “confortável” de festival que tive na vida. Sem perrengues, sem stress, apenas música muito boa com um som muito bom num lugar extraordinariamente bonito. Cinco minutos a pé separavam o parque onde ocorre o festival do hotel onde fiquei e da minha cama quentinha (item muito necessário na Noruega, mesmo no Verão). Quatro dias na cidade e muitos fiordes, geleiras e trens depois já me faziam sentir em casa, não fossem as satânicas coroas norueguesas e os cafés da manhã de 40 reais (e almoços de 60).

Mas vamos a alguns dos shows:

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Melody’s Echo Chamber pode ser considerada uma banda filial do Tame Impala. Kevin Parker, vocalista do Tame Impala, não só produziu o primeiro e ótimo disco da banda-projeto, como também namora a vocalista-cérebro Melody Prochet (ou pelo menos namorava da última vez que eu chequei). Tinha muitas dúvidas sobre como a Melody’s Echo Chamber funcionaria ao vivo e fiquei de queixo no chão. A banda extremamente competente que acompanha a moça conseguiu o que eu achava impensável: reproduzir com perfeição a atmosfera psicodélica de mil camadas do álbum e torna-la ainda mais palpável e eficiente ao vivo. Claro que o palco Magic Mirrors ajudou a compor o clima, mas foi muito legal ver o pequeno público se empolgando aos poucos e acompanhar de um jeito tão intimista um show tão arrebatador.

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Enquanto a organização do Bergenfest “profetizava” sobre o Biffy Clyro no release do festival afirmando “Depois de receber Coldplay e Muse, o Bergenfest recebe o Biffy Clyro”, quem vem brigando bonito por esse posto de “novo Coldplay” são os americanos do Imagine Dragons. O vocalista Dan Raynolds já se comporta como um grande frontman do rock-gente-boa, batendo no seu tambor gigante e gritando refrãos de conforto para as massas. Sua atitude de palco é bem genuína mas uns elogios ao público meio genéricos e exagerados tiravam um pouco a credibilidade do seu esforço – as adolescentes adoravam.

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A esquizofrenia sonora do Imagine Dragons que não se decide entre ser meio indie ou muito pop (o que não é um defeito) produz alguns momentos bizarros, como um cover muito esquisito de “Hang Me Up To Dry” do Cold War Kids e a xaropada sem fim que é “On the Top of the World”, candidata a um dos grandes hinos coxinha da nossa geração. Essa mesma mistura provoca momentos ótimos, como os hits “Demons”, “Radioactive” (que encerrou o show com um tom desconcertante de apocalipse fofo) e “It’s Time” que funcionam maravilhosamente bem ao vivo. Em “It’s Time”, Dan Raynolds que vestia uma camiseta com um pequeno símbolo do casamento igualitário no coração e um imenso nas costas, apertava emocionado o símbolo quando cantava “I’m never changing who I am”. Fofo. Aguarde uma catarse coletiva quando eles vierem pro Brasil.

E o que dizer do Biffy Clyro? A banda escocesa menos escocesa do universo canta com sotaque norte-americano um hardcore que soava meio ultrapassado pra mim até eu presenciar a reação calorosa de um público do qual é muito difícil extrair uma reação calorosa. Tudo bem que a galera ali era majoritariamente feminina e com menos de 25 anos, mas ainda assim foi uma reação surpreendente. O Biffy Clyro não tem medo de soar extremamente pop pra atingir qualquer rádio do mundo e o mundo precisa de grandes bandas de rock fácil, então podemos estar diante de um casamento de sucesso. Só que a apresentação genérica, as guitarras pesadas de vitrine, e a necessidade dos integrantes de tirarem suas camisetas mesmo às 23h e a poucos quilômetros do círculo polar ártico dizem muito sobre a banda. Ao invés de um sucessor britânico de Muse e Coldplay, me senti diante de um novo Blink 182.

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Os ingleses do Noah and the Whale pareciam feitos para o segundo palco do Bergenfest e seu clima bucólico. Numa disposição interessante, o violinista Tom Hobden é quem fica no centro do palco enquanto o vocalista Charlie Fink relega sua pose neo-Bob Dylanesca para o canto esquerdo do palco. Esse privilégio ao violino se nota em todas as músicas do Noah and the Whale e o som extraordinariamente nítido do festival fez com que eu (e tenho certeza que mais alguns fãs bem animados da banda) embarcassem numa viagem transcendental no clima e na sonoridade folk daquela apresentação. Sem firulas, pouca conversa, mas com um ótimo repertório executado com maestria, tudo que eu tinha vontade naquele momento era montar uma filial folk do Bergenfest numa fazenda da Serra da Mantiqueira. Alguém me ajuda?

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A norte-americana Lissie também se apresentou no segundo palco, lotou o espaço, e animou bastante o público apesar de usar o show como test drive de seu novo disco que ainda não foi lançado. Sempre munida com uma guitarra ou um violão, o pop com uma levada meio country de Lissie funciona muito bem ao vivo, e seu carisma e voz extraordinários deixam a apresentação na palma de sua mão. O momento em que ela anunciou o hit “When I’m Alone” foi uma das pouquíssimas vezes em que vi o público norueguês comemorando uma música antes dela começar.

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A norueguesa Susanne Sundfor, que tocou antes do Mew no palco principal, é um caso à parte e eu poderia escrever algumas boas páginas apenas para ela. Susanne, que já é um grande sucesso na sua terra natal, rompe aos poucos a barreira do alternativo internacional, principalmente por causa de sua participação com o M83 na trilha sonora do filme “Oblivion” (uma das únicas coisas boas do filme). Sua voz é inacreditável e sua música intrincada e difícil lembra uma mistura de Kate Bush, James Blake, Fiona Apple e por aí vai. Ao vivo são sete teclados e sintetizadores no palco como única companhia pra bateria. O resultado é épico. O fato de Susanne ter discos em primeiro lugar na Noruega diz muito sobre o país tanto quanto a reação estática do público que adorou o show mas que não movia um pé com as intensas batidas eletrônicas a la Crystal Castles da apresentação.

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Sobre o Mew dediquei um grande post falando sobre o show do Bergenfest, e sobre o show solo deles que vi em Copenhagen.

4 thoughts on “Bergenfest: as inúmeras vantagens do festival mais tranquilo que já vi

  1. Open air and club festival in the city centre of Bergen. Open air shows take place in mediaval fortress and castle located in the city’s historic centre. Main stage capacity 6.700, second stage capacity 2.000. Indoor shows take place at venues (clubs and theaters) across town with capacities ranging from 150 – 1500.

  2. Uma sucessão de convidados passou então a subir ao palco, começando com Ronnie Hawkins em “Who Do You Love?”. Sob o nome The Hawks, o The Band servira como banda de apoio de Hawkins no começo da década de 1960 . Em seguida, Dr. John sentou-se ao piano para apresentar a canção “Such a Night”, sua marca registrada. Ele então mudou para a guitarra e juntou-se a Bobby Charles em “Down South in New Orleans”.

  3. Com um silêncio entre as atuações, muito diferente de outros festivais, que nestes tempos mais “mortos” debitam habitualmente decibéis de publicidade inútil, o Optimus Primavera Sound é um festival diferente. Centenas de pessoas, como se de um pic-nic gigante se tratasse estendem as suas mantas na colina verdejante que cria um anfiteatro natural ao palco Optimus,enquanto esperam por atuações ou simplesmente para as assistir. Eram cerca das 20h, o sol punha-se no horizonte e respirava-se calma num recinto bastante bem composto, enquanto se esperava que os Local Natives subissem ao palco, e fizeram-no sob uma luz tão típica dos finais de tarde desta altura do ano, talvez o cenário ideal para o indie rock destes originários de Silver Lake, Los Angeles. Os americanos mostraram-se encantados com a cidade e o publico encantado com eles. À mesma hora Daniel Johnston fazia ecoar as suas canções rock melancólicas no palco ATP. Pelo meio uns Swans, iguais a eles próprios, no palco Super Bock.

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