Caribou deixa público em transe com balada autoral

Tentar definir o som do Caribou num primeiro momento pode escorregar fácil para termos como “experimental” e “psicodélico”. Não que o som do projeto do canadense Dan Snaith não possa ser descrito assim, mas em show realizado na última quarta (27) em São Paulo ele provou que o Caribou é – e pode ser – bem mais do que isso.

O show aconteceu no Clash Club como parte da primeira edição do festival FourFest, que no final das contas não foi muito bem um festival: o DJ Renato Cohen, a primeira atração, fez trilha sonora pras pessoas que chegaram cedo comprarem bebida. Já Gold Panda, segunda e única atração antes do Caribou, fez o que poderia muito bem ter sido definido como “show de abertura”. Codinome do produtor inglês Derwin e nome com importância crescente no cenário da música eletrônica, Gold Panda apresentou músicas do seu recente álbum de estréia, o interessante Lucky Shiner, para um público que chegava aos poucos e que não se empolgou muito com a profusão de barulhinhos (às vezes ensurdecedores) que se combinavam formando músicas como a viciante You.

Gold Panda

Depois de um pequeno intervalo, começou sem aviso o show do Caribou. Ao vivo o PhD em Matemática Dan Snaith – que trabalha sozinho na gravação dos CDs – conta com a ajuda da banda de apoio formado pelo baterista (insanamente bom) Brad Weber, pelo baixista Ryan Smith e o guitarrista John Schmersal – e mesmo assim divide seu tempo entre vocais, guitarra, teclado e bateria. A setlist passou por quase todo seu último trabalho, o aclamado Swim, concedendo a todas as músicas uma roupagem mais potente e finais apoteóticos que não existem nas gravações de estúdio.

Se nos CDs as músicas do Caribou podem parecer “cabeça” demais devido às várias texturas sonoras e o som milimetricamente organizado, ao vivo se comprova o que Dan diz em entrevistas: seu som é mais intuitivo e emocional do que matemático, e o que ele quer é que as pessoas dancem.

E o público foi atendendo seu pedido aos poucos. E se eu não estiver errado, sei até dizer a partir de qual música o público se entregou por completo: foi na piração instrumental de Bowls. Depois foi só festa. A intensidade da apresentação era tanta que a catarse coletiva foi se instalando até que a pista do Clash se transformasse numa balada virada para o palco. O setlist só “saiu” do eletrônico para tocar o hit Melody Day do ótimo álbum Andorra (metade rock sessentista, metade eletrônico). O final, com uma performance indescritível de Odessa (que eu estou tentando entender até agora) e o bis apocalíptico de Sun (que deve ter passado fácil dos 15 minutos) fechou o que deve ter sido um dos melhores shows do ano no Brasil.

Pra mim foi difícil não lembrar da apresentação insossa do AIR há duas semanas no Natura Nós e sentir vontade de gritar “ISSO é música eletrônica ao vivo”. Não é à toa que o show do Caribou está tão bem falado em festivais ao redor do mundo: o jeito como a mistura do orgânico e do eletrônico é concebido torna a experiência de consumir aquelas músicas ao vivo algo único e infinitamente melhor do que qualquer DJ Set. Dá vontade de sair em turnê com o Caribou e nunca mais ouvir cd… pelo menos até você voltar pra realidade.

Talvez você também goste...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *