Charmoso e com ótimas atrações, Primavera Fauna é um bom destino para fãs de música alternativa

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Fotos por Luís Gustavo Coutinho

O Movistar Primavera Fauna, apesar de novo, chega na sua quinta edição como um dos mais importantes festivais de música alternativa da América do Sul. A edição de 2015 aconteceu no sábado – 14 de Novembro – nos arredores de Santiago no Chile, incrustado entre montanhas e piscinas, e com line-up e clima ensolarado de darem inveja a qualquer grande festival.

Nina Persson e seu The Cardigans como se ainda fossem os anos 90
Nina Persson e seu The Cardigans como se ainda fossem os anos 90

Por dois palcos principais e dois espaços menores dedicados à música eletrônica, passaram artistas do calibre de Morrissey, The Cardigans, Empire of the Sun, Mac DeMarco, Explosions in the Sky, Wild Nothing, Miami Horror, e até o Brasil foi bem representado pelos paulistanos da Inky, que tocaram no maior palco do festival. Entre várias apresentações excelentes, vale dar destaque pra apresentação transcendental do Explosions in the Sky (que ocorreu durante o pôr-do-sol) e os shows surpreendentemente vigorosos dos veteranos Morrissey e The Cardigans. A única decepção ficou por conta do Wild Nothing, inédito na América do Sul e que era bem esperado pelo público.

Jack Tatum não conseguiu passar sua empolgação para os outros membros do Wild Nothing
Jack Tatum não conseguiu passar sua empolgação para os outros membros do Wild Nothing

O grupo encabeçado pelo americano Jack Tatum teve metade de seu setlist retirado do seu terceiro álbum que sairá em Fevereiro de 2016, e o show em vários momentos parecia apenas um teste desse novo material. O público se envolvia nas músicas mais conhecidas como “Shadow” e “Chinatown” e ficava claramente decepcionado com a ausência de mais material familiar. A própria banda parecia se arrastar por boa parte do show: o tecladista errou o começo de duas músicas e era difícil relevar a expressão de desinteresse nos rostos da trupe de Jack Tatum. Felizmente, como já foi dito, o caso do Wild Nothing foi isolado.

Por outro lado, Mac DeMarco e sua trupe pareciam se divertir mais que o público
Por outro lado, Mac DeMarco e sua trupe pareciam se divertir mais que o público

Na parte do line-up que presou bem pelo rock-de-beira-de-piscina – como as bandas Miami Horror, DIIV e Wild Nothing – quem se deu melhor foi Mac DeMarco e sua apresentação divertidíssima. O canadense toca como se estivesse matando uma aula de Física da 7ª B e suas músicas aparentemente despretensiosas e relaxadas, somadas a uma atitude de palco inconsequente dele e dos outros membros da banda, levaram o calmo público chileno ao delírio.

Santiago é conhecida pela grande quantidade de cachorros em suas ruas. Além do cachorro hipster, havia alguns cães de verdade espalhados pelo festival!
Santiago é conhecida pela grande quantidade de cachorros em suas ruas. Além desse cachorro hipster, havia alguns cães de verdade espalhados pelo festival! O público interagia com eles e os respeitava, mesmo quando latiam durante os shows.

Sobre o público é importante dizer que ele é bem diferente do que estamos acostumados, principalmente se você mora em São Paulo e tem ido a muitos shows recentemente. Se já virou uma péssima tradição aguentar shows por aqui com uma barulheira de conversa que às vezes se sobrepõe à música do artista, no Primavera Fauna a ótima qualidade de audio das apresentações tinha como resposta dos ouvintes apenas os aplausos e gritos. Conversas eram esparsas e baixas perto do palco e até longe dele, e só se faziam notar nos espaços de convivência. Mesmo nos simpáticos gazebos com almofadinhas e ótima vista pro palco principal, as pessoas estavam mais preocupadas em assistir aos shows do que conversar. Parece óbvio, mas devia ser mais comum que quem paga um preço alto por um festival prestasse atenção no que está assistindo, certo?

Pôr do sol atrás do camarote VIP
Pôr do sol atrás do camarote VIP

A estrutura e o tamanho do festival são surpreendentemente pequenos em comparação com os eventos brasileiros que pudessem ter essa escalação. O que é ótimo porque consegui chegar perto de todos os shows que queria ver. No classudo show do grupo californiano Rhye por exemplo, já durante à noite, umas 100 pessoas no máximo acompanhavam atentas as batidas envolventes e a voz inacreditável de Michael Milosh. O timbre dele lembra muito o da cantora nigeriana Sade e as ótimas músicas do repertório do disco de estreia eram esticadas, retrabalhadas e iam muito além do que o Rhye apresenta em estúdio – o que é uma tarefa em tanto!

Rhye e seu vocalista que canta igual a Sade
Rhye e seu vocalista que canta igual a Sade

Justamente por causa dessa experiência mais intimista mesmo com uma line-up tão forte, não vá esperando a pirotecnia de um grande festival no Primavera Fauna! Tudo é mais compacto. Além das piscinas – que eu só vi serem usadas muito brevemente e que depois foram fechadas – o espaço não era muito grande e nem havia tantas atividades extra-show. Havia por exemplo algumas mesas de pebolim e uma ação publicitária onde um cabeleireiro cortava seu cabelo ao estilo de Morrissey se você postasse o antes e o depois no instagram com uma determinada hashtag. Também dava pra gastar um bom tempo na ótima praça de alimentação completamente vegetariana onde almocei e jantei bem por R$50 ao todo.

A ótima praça de alimentação vegetariana, com opções excelentes mas filas imensas em certos horários.
A ótima praça de alimentação vegetariana, com opções excelentes mas filas imensas em certos horários.

Mas num festival de música é claro que a prioridade deveria ser sempre os shows. E nesse quesito o Primavera Fauna ganhou de lavada dos últimos festivais que eu vi no Brasil. Nos dois palcos principais as apresentações impressionavam pela qualidade de execução e de som, e se emendavam com pontualidade invejável. Dava realmente pra ficar de uma da tarde até 3 da manhã só vendo ótimos concertos: foi difícil sacrificar tempo durante os shows pra comer, beber e ir ao banheiro. E mesmo pra quem perdesse o interesse no rock alternativo, o pequeno palco ao lado das piscinas e a tenda eletrônica sempre tinham música local e internacional no mínimo interessantes.

As piscinas pareciam convidativas, mas não consegui descobrir porque não foram liberadas.
As piscinas pareciam convidativas, mas não consegui descobrir porque não foram liberadas.

Sem Festival Planeta Terra pra competir, nós brasileiros estamos devendo bastante no quesito “festival de música diurno com experiências paralelas à música”. Tirando o Lollapalooza, poderíamos citar o Meca Festival como exemplo promissor. Além de uma experiência super agradável e ótimos shows, vale muito a pena gastar alguns dias em Santiago, uma metrópole de 5 milhões de habitantes extremamente organizada, bonita e receptiva.

Alguém disse "neve"?
Mesmo no quase verão ainda dava pra ver neve no topo dos Andes

Minha única experiência com desorganização por lá foi justamente na ida pro Primavera Fauna: por causa de uma maratona no centro da cidade nenhum dos ônibus que levavam o público pro distante local do festival saíram entre o meio-dia e as duas da tarde, o que me fez perder o show dos paulistanos da banda Inky. Um problema que deveria ter sido previsto e para o qual não encontraram nenhuma solução rápida. Tamanho amadorismo era encarado com a maior calma do mundo por quem formava a imensa fila sob um sol de rachar no centro de Santiago. Quando eu perguntei pra um amigo chileno porque ninguém estava nervoso ele mencionou um dia em que fez um barraco num ponto turístico fechado e acharam que ele era brasileiro. Acho que um maior intercâmbio de experiências entre a gente e nossos vizinhos latinos faria bem pra todos, ambas as partes tem bastante pra aprender.

P.s. Os ventos que sopram dos Andes e do Pacífico são aterradores! O melhor conselho que eu ouvi antes do festival foi “Leve um casaquinho” e acredite, é melhor seguir esse conselho!

Olha o nível da programação!
Olha o nível da programação!
DIIV
DIIV
DIIV assistindo o Wild Nothing
DIIV assistindo o Wild Nothing
O show absurdo do "Explosiones en el Cielo"
O show absurdo do “Explosiones en el Cielo”
Morrissey
Morrissey

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