"Dou uma choradinha, lavo o rosto e vou trabalhar", diz mãe de Cazuza

Lucinha-AraujoJá se vão 25 anos sem o cantor Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza. Ícone de sua geração exagerada, cantou sobre o cotidiano e amores desesperados ainda na época do Barão Vermelho, ditava moda, e – quando soube que estava doente – entoou as mazelas da sociedade, escolheu sua ideologia pra viver, e pediu para que o Brasil mostrasse sua cara. Seu tempo parou em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, quando perdeu a luta contra as complicações do vírus da aids.

Conversei, por telefone, com Lucinha Araújo, mãe do saudoso Cajú (apelido do apelido), que puxa série de entrevistas sobre o tema. “Não sou masoquista, mas quero sofrer pela falta do meu filho. Posso dar uma choradinha todo dia, depois lavo o rosto e vou trabalhar. Mas não quero deixar de pensar nele com saudade”, diz. “Pra mim é mais um ano sem meu filho. Não tem diferença ele ter morrido na véspera ou há 25 anos. A dor continua igualzinha. O tempo não apaga, não, só vai mudando o sentimento. Não é que eu esteja conformada. A saudade vai existir sempre. Eu quero sofrer”.

Tiete assumida, conta que ele deixou sua marca na música nacional.”Depois que ele soube que estava doente, começou a cantar o País dele. E fez melhor que ninguém. As letras estão atuais até hoje. Eu acho que o cenário musical brasileiro tá meio devagar. Não sei se é por causa da política ou se as pessoas estão cansadas. Mas acho que ainda não surgiu outro Renato Russo ou Cazuza. Depois da geração deles, a música não apontou ninguém com a mesma força”.

O maior legado de Cazuza, explica Lucinha, não foi só de belas canções ou de estilo, mas de coragem. “Ele se confessar soropositivo, no auge da beleza, da juventude, da carreira, ganhando o dinheiro dele. Aquilo foi um ato de extrema coragem. Eu passei a admirar ainda mais meu filho”, refere-se à entrevista que deu ao “Fantástico”, falando ainda que a aids naquela época era tida como uma nova “peste”.

O tempo de Cazuza parou em 7 de julho de 1990 - Foto: Divulgação/Sociedade Viva Cazuza
O tempo de Cazuza parou em 7 de julho de 1990 – Foto: Divulgação

Seu fardo tornou-se inspiração para a Sociedade Viva Cazuza, instituição de luta contra aids. “Eu procuro encontrar nessas crianças um sorriso dele. Tenho vários filhos aqui”, derrete-se pela instituição que atende 15 crianças em regime de internato. “Venho todos os dias aqui, menos sábado e domingo. Adultos são 200 mensalmente, que vêm buscar ajuda ou uma cesta básica”.

Num tributo ao ídolo, ela diz que não pode faltar o amor. Lucinha se intitula “difícil” para escolher uma versão preferida de música de Cazuza. “Sempre acho que a dele é melhor. ‘Codinome Beija-Flor’, o Luiz Melodia cantou quase tão bem quanto ele. Eu sempre brinco: ‘nossa, você quase superou o Cazuza’”. Ela não tem uma única música preferida de Cazuza, depende de seu estado de espírito. Mas gosta muito de “Um Trem Para as Estrelas” porque acha a letra muito bonita. “Eu ouço ele todo dia. Se não estou afim de ouvir, ligo o rádio e está lá tocando”.

No ano em que se faz 25 anos da perda do ídolo, os fãs ganham uma série de presentes. Está previso para o segundo semestre um CD com letras inéditas, musicadas por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Bebel Gilberto, Seu Jorge, Xandy de Pilares, entre outros. Além disso, a reedição de “Só as Mães São Felizes”, livro que deu origem ao filme que trata da relação entre Lucinha e o filho, além da atualização de “Eu Preciso Dizer que te Amo”, um guia sobre as faixas e regravações do astro do rock nacional.

Foto: Divulgação

Negando que possa haver um novo documentário sobre Cajú, diz que fez tudo o que tinha de ser feito, enumerando filme, exposição, livros etc. “Não tenho nem mais idade. Ano que vem vou completar 80 anos, chega, já é bastante”, afirma ela, falando que seu principal objetivo é levar adiante todos os projetos que já estão em andamento.

De mensagem para os fãs, dispara a frase: “Volta, Cazuza. Eu sei que é impossível, mas alimenta muito a alma. Se ele não voltar, vou ao encontro dele. Depois do que eu passei, tiro qualquer coisa de letra. É uma coisa tão anti-natural os pais enterrarem os filhos, você fica vacinada para o resto da vida. Ele foi tão forte, tão corajoso, que não poderia ser diferente. Eu aprendi muito mais com ele do que ensinei”.

SITE_RG

Por André Aloi, especial para o Site RG
O texto acima é uma r
eprodução; veja a publicação original

[hr]

[alert type=”info”] A partir daqui, o conteúdo é exclusivo![/alert]

SUCESSO INTERNACIONAL
Ela não tem uma única música preferida de Cazuza, depende de seu estado de espírito. Mas gosta muito de “Um Trem Para as Estrelas” porque acha a letra muito bonita. “Eu ouço ele todo dia. Se não estou afim de ouvir, ligo o rádio e está lá tocando. É maravilhoso. Melhor do que você ser famoso, é ter um filho famoso”, diz ela, que não é só no Brasil esse carinho. “Fui à Lisboa (Portugal) recentemente e fiquei boba como as pessoas conhecem ele. Cazuza nunca fez um show fora do Brasil. Fico impressionada. Eu encontrei gente na rua, fiquei boba. Falei: ‘meu Deus… olha o que ele perdeu, que pena que ele foi embora tão cedo’”.

O TEMPO NÃO PARA
Sobre o filme de Sandra Werneck e o Walter Carvalho, “Cazuza – O Tempo Não Pára”, de 2004, se sentiu horrível naquele filme. “Me achei tão chata, mas tão chata! Ou me pintaram chata ou eu sou assim. ‘Você zelava pelo seu filho’, ouvia deles. Mas eu falo que eu era chata mesmo. É porque eu só tinha um filho. Filho único, coitado, sofre muito”, explica, reforçando que não mudaria nada dessa relação. “Criança não vem com bula, só tive uma e aprendi tudo naquela. Se tivesse tido outras, talvez tivesse sido mais benevolente”. Ela tentou todos os métodos ao alcance à época, mas não teve sorte. “Deus sabe o que faz, que era pra ter tido um mesmo que ia me dar muito trabalho”.

RELAÇÃO MÃE E FILHO
Ainda sobre essa relação com o filho, ela não acredita que ele fosse difícil de lidar, mas os dois tinham gênios muito parecidos. “Eu casei com meu primeiro namorado, vivi em outros tempos, frequentei colégio de freira, obedecia pai e mãe. Ele nasceu em outra época, a da revolução sexual, de tudo. Então, a gente batia de frente de vez em quando. Mas o amor era muito grande, tanto comigo quanto o pai dele. Comigo, a relação era mais tumultuada, com o pai era mais calma. Mas o amor era igual. Temos uma família muito querida”, diz assim mesmo, no presente.

 

Talvez você também goste...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *