Em Santos, Emicida faz show intimista e visceral

DE SANTOS
Nathália Geraldo, especial para o aos cubos

Mandando seus versos em cima de um tablado, muito próximo do público, muito próximo da rua, o rapper Emicida veio a Santos – num calor infernal – para apresentação no espaço Pelé Arena Café, no último sábado (29). No repertório, a mistura de seu último trabalho “Emicídio” com a outra mixtape “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe…”, lançada em 2009, cuja música E.M.I.C.I.D.A faz as vezes de uma carta de apresentação direta e endereçada.

Talvez eu seja só mais um profeta de Walkman
Porém fatos são fatos, logo, veja bem
Vários MCs ganhou vários torneios, é comum
Mas quem trouxe a rua até aqui eu só conheço um.

Nessa música as meninas ganham voz, coisa que pode soar forçosamente romântico e meloso (alô, Marcelo D2). “O Emicida vai tá lá? Adooooro” é a resposta que entremeia as rimas bem colocadas e, por vezes irônicas, que mais da metade do recinto já sabia de cor. Ele sabe fazer música amorzinho do mesmo jeito que sabe juntar forças para dizer sobre a luta cotidiana da vida de muitos brasileiros.

Isso é só um exemplo da inventividade do Emicida. No show, ainda vieram as boas “Triunfo”, “Cê lá faz ideia” e “A cada vento” (não lembro do setlist completo, mas essas foram realmente viscerais; se alguém souber, poste aí). Na passagem de uma música para outra, o público se aproximava ainda mais das caixas de som, atento ao que se expunha no microfone, como se cada palavra fosse um meio de compreender o meio social em que vivemos.

Era a vocação complementando a necessidade. O talento pra quem já estava cansado de ouvir música fabricada em série. O improviso à capela pra quem achava que uma falha técnica na mesa de som iria silenciar o MC.

Para quem quiser ouvir o trabalho completo, entender o discurso, ampliar a percepção, um show do Emicida é recomendação das fortes. As duas mixtapes são vendidas por até R$ 5 em pontos autorizados ou antes do show. Na longa e eterna espera para entrar no Pelé Arena Café, as mixtapes eram anunciadas por um menino com um megafone na mão (Quer cenário mais independente que esse?).

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Para conhecer o som
Há várias formas de conhecer o Emicida. A mais fácil talvez seja a que também deu maior projeção ao rapper, vindo do bairro de Santa Cruz, em São Paulo: a participação na música Só Rezo 0.2, do NX Zero, parte do CD Projeto Paralelo, lançado no final de 2010.

Outra boa via é conhecer primeiro, como eu fiz, o discurso e depois as rimas. Pra isso, vale muito ler essa entrevista feita pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches em setembro de 2010, quando Emicida lançava sua segunda mixtape: “Emicídio”.

Rebento do estilo freestyle, Emicida começou a servir o rap [e vice-versa] em 2006, nas batalhas de MCs que acontecem nas ruas de São Paulo. Desse berço vem toda a filosofia “A rua é nóiz”, ideia que representa, basicamente, a necessidade de união daqueles que levantam cedo pra trabalhar, correr atrás dos ganhos, viver entre as avenidas e vielas. Pode até parecer que essa frase de efeito seja vazia e, de tanto disseminada por Ns [de nóiz] feitos com as mãos, seja vista como um mero slogan pra emplacar no mainstream.

Mas, te dou a certeza de que pra quem já mordeu um cachorro por comida, a mensagem é mais séria e mais sincera. Basta ver a humildade e o talento estrondoso que Emicida tem quando sobe no palco.

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Agradecimento pelas fotos: Bruno Mendez ou ‘Billi’, como é popularmente conhecido.

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