Em SP, Carl Barat transforma show solo em celebração ao The Libertines

Fotos de Ana Laura Ferraz.

O inglês Carl Barat ajudou a escrever a história da música no começo dos anos 2000 ao lado de Pete Doherty (mais problemático e mais emblemático que Carl). Juntos no The Libertines criaram mais que uma banda: praticamente um ícone do que era o indie naquela época. Depois da breve vida do The Libertines, que deixou um legado (pro bem e pro mal) a ser seguido e imitado por muitos anos ainda, criou o Dirty Pretty Things, e veio ao Brasil agora com um ótimo álbum solo nas costas (“Carl Barat”, 2010). Tudo levava a crer que a apresentação seria em cima deste álbum mas, para alegria dos fãs, Carl se rendeu ao passado e transformou seu show em uma grande retrospectiva de sua carreira.

O show que aconteceu no Beco 203 na última quinta (dia 12) foi antecedido por uma apresentação dos goianos do Black Drawing Chalks. Adorados pela mídia alternativa, a banda goiana sustenta uma pose e um som completamente destoantes do cenário onde excursionam e “acontecem”, parecendo ter sido encaixados a força na cena indie nacional por falta de cena mais apropriada para o seu som. Depois de meia hora de pancada, o Black Drawing Chalks deixou o palco para Carl Barat e pouca gente imaginava que eles ainda voltariam e seriam importantíssimos para o andamento da noite.

Carl deixou em casa a banda que o acompanhava nas turnês de divulgação de seu álbum solo e subiu no palco apenas com um violão. Ficou claro em pouco tempo que ele também tinha deixado o álbum solo em casa (que conta com arranjos surpreendentemente elaborados, melodias doces e até coros e cordas) pra se concentrar em relembrar os velhos tempos. Quando cantava alguma música do The Libertines, como “What Katie Did”, sua voz era engolida pelo público cantando muito alto da primeira até a última palavra. Das poucas músicas que vieram do álbum solo, uma ou duas (como “Run With the Boys”) despertaram algum interesse.

Mesmo com toda a empolgação do público, um show com saudosismo demais e uma estrela que já não brilha tanto empunhando só um violão tem tudo pra ser um tiro no pé (Chris Cornell no SWU como exemplo mais recente). Foi aí que entrou o Black Drawing Chalks. Tão repentinamente quanto entraram pra fazer a abertura, a banda entrou no show de Carl e o peso do seu som deu todo o clima de garagem que o show precisava pra ser uma homenagem a altura do The Libertines.

E dá-lhe comoção em hits como “Bang Bang You’re Dead” do Dirty Pretty Things e “Can’t Stand Me Now” e “Time for Heroes” do The Libertines. E às vezes dava pra definir o show como punk sem ofender ninguém, já que teve até roda de pogo e três moços bem bêbados brigando pelo lenço que tio Carl jogou no público emocionado. Visivelmente feliz, Carl falava muito e dentre as pouquíssimas coisas que dava pra entender enquanto eram atropeladas boca afora, ouviram-se elogios ao Black Drawing Chalks e declarações de amor ao Brasil.

Depois de um intervalo demorado, Carl voltou para o bagunçado bis cujo destaque foi a participação de duas pessoas do público em “Boys in the Band”, exigida em coro por todos, mas que Carl alegou não lembrar mais como tocar. Ficou claro que o guitarrista improvisado, figura empolgadíssima durante todo o show, só disse que sabia tocar para estar mais perto de seu ídolo e o momento teria sido um desastre se todo mundo não estivesse tão empolgado e a situação não combinasse tanto com a vibe do The Libertines. E se você generalizar um pouco, pode dizer que foi isso o que salvou não só aquele momento mas o show inteiro que, longe de ser um desastre, parecia uma festa com a banda de garagem dos seus amigos.

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