Entrevista: baianos da Sertanília se apresentam em São Paulo

Qual é a diferença entre ouvir um blues antigo do sul dos Estados Unidos e uma música regional do sertão nordestino? Por que um é tido como cool e outro como ultrapassado? Estas são algumas das questões que a banda Sertanília – que surgiu há pouco mais de um ano em Salvador e é formada por  Aiace (vocalista), Leilane dos Santos (violoncelo), Anderson Cunha (viola), Diogo Flórez (percussão) e Tainnã Chagas (percussão) – explora no seu trabalho.

Com o primeiro disco previsto para janeiro de 2012, o grupo aposta na sua apresentação ao vivo como forma de divulgação do trabalho. Para isso, usam uma estratégia diferente: não fazem shows assiduamente. Assim, provocam uma expectativa no público, e podem dar um caráter de espetáculo ao evento.

Eles tocam em São Paulo nesta quinta-feira (27), no Zé Presidente, às 22h. No domingo (30), se apresentam na Casa Fora do Eixo, onde me receberam para uma conversa divertida e bem baiana (afinal, somos conterrâneos).

Aos Cubos – Vocês participam do circuito Fora do Eixo?
Anderson: Não, não somos participantes ativos do Fora do Eixo. A gente pretende entrar no coletivo ainda. Nessa viagem, a turma da casa está dando uma força pra gente porque a nossa produtora é do coletivo Quina Cultural, de Salvador, que é do Fora do Eixo. Mas o Sertanília ainda não está devidamente incorporado no grupo.

Ouvindo a música de vocês, percebi que o som que fazem é muito diferente do das bandas pop de lá (de Salvador), que costumam ter uma sonoridade parecida. Como é que vocês veem isso, e que público é o de vocês?
Aiace: De fato, quando se observa a cena de Salvador, a gente destoa bastante. Mas é um som que é de lá da Bahia também, sabe? Faz parte, mas as pessoas desconhecem, porque não vem de uma região tão divulgada, como o litoral e o recôncavo baiano. Nossa música é oriunda do sertão, e buscamos trazer as raízes de lá. Por conta disso, ele acaba se aproximando um pouco do que o pessoal de Pernambuco faz. Tende pra isso. Mas, apesar de não ser tão comum em Salvador – e talvez até por isso –, as pessoas têm abraçado muito,  gente de diversas idades vai aos shows, assiste, procura saber mais. Curte mesmo a banda.

Anderson: O cenário de rock de Salvador é um pouco clichê: ou copiam as bandas de Londres, ou as de Nova Yorque. Salvo algumas exceções, não há um rock com a identidade da Bahia. Acho que a Pirigulino Babilake, hoje – eu sou suspeito, porque produzi o disco deles – é uma banda que tem um traço baiano, e ao vivo tem uma pegada muito forte.

Aiace: Eu acho que a Quarteto (de Cinco) se enquadra também.

Anderson: Mas algumas pessoas já citaram que o som que a Sertanília faz é rock. Quem não viu ao vivo, às vezes não tem essa noção. É algo mais no conceito e na estética, não na música. Mas ao vivo é muito pesado, soa rock.

Aiace: Apesar de a gente não tocar o rock puro, isso está dentro do som, assim como milhares de outras influências que cada um traz.

Anderson: Alceu Valença fala que foi contemplado certa vez com um Grammy de World Music, mas que não fazia esse tipo de música. Ele faz uma música que não tem fronteira, às vezes é heavy metal. Tem uma conotação “rocker”, mais de atitude. O som da gente é diferentão mesmo.

É, eu achei muito mais próximo do de Pernambuco – e tem muito mais espaço lá do que em Salvador…
Anderson: É uma questão geográfica, na verdade. Elomar diz que “o sertão não é Bahia”. É um estado separado, que pega partes de muitos lugares do Nordeste. Daí às vezes falam que o Sertanília soa como Pernambuco, mas não é isso, e sim porque o sertão adentra a Bahia também. Lá na região, onde fazemos nossas pesquisas, existem as mesmas células musicais de maracatu e de coco que também estão em Alagoas, Pernambuco. Não soa como Pernambuco, e sim como sertão.

Não é que soe como Pernambuco, mas é porque estive no carnaval de Recife neste ano e notei que lá tem muito espaço para esse tipo de música. Em Salvador, é difícil ver isso no carnaval, na televisão…
Anderson: É que o pernambucano é mais aguerrido, mais radical nisso de salvaguardar a cultura, a raiz. Lá em Salvador, a gente tem uma permissividade maior com as coisas. Isso é um fato.

Como é essa pesquisa que vocês fazem no sertão?
Aiace: Anderson é de lá – e ele estava fazendo, no ano passado, a trilha sonora de um documentário chamado “Tudo Tem um Tempo”, sobre os ternos de reis do sertão.

Anderson: Eu nasci em Caetité (distante 647 km da Salvador), praticamente na fronteira com Minas. Vou muito lá na minha terra, e convivo com essas manifestações desde criança. Acho que a ideia da banda me aconteceu quando conheci Elomar. Foi uma oportunidade muito legal que tive de conhecê-lo pessoalmente. Ele é extremamente recluso, não fala com ninguém. Fui gravar o áudio de uma entrevista pra um livro, que tinha um CD encartado. Fiquei lá no meio do mato com ele, numa casa que não tem energia, água, nada, passar duas noites. Foi aí que tive a concepção mais correta e fiel do que o sertão representa pra grande mídia, e de como as coisas são esquecidas. Uma cultura que é brasileira de origem, né? E nesse documentário que fiz, comecei a ver e gravar manifestações populares, cantigas e melodias que eu ouvia na minha infância. Aí pensei: isso é pop! Pode se transformar pop, pode ser uma coisa palatável, e os jovens podem ouvir isso. Do mesmo jeito como ouvem Strokes e Arctic Monkeys.

Aiace: É ouvir, reconhecer e tomar como seu, né? Porque essas bandas não são daqui. Não vale só pro pessoal da Bahia, Minas ou Pernambuco. É geral, brasileiro.

Anderson: Você deu um bom exemplo com Pernambuco. Os artistas de lá sobem no palco e a galera vibra, é uma relação forte. São pessoas mais politizadas, esclarecidas.

Na Bahia isso fica mais com Tom Zé, Elomar… pessoas mais velhas.
Anderson: Mas que os jovens não têm muito acesso, e acham que é cafona, ultrapassado. Na verdade é uma ideia preconcebida, um estigma que precisamos quebrar. A gente usa alfaia, pandeiro, viola. Instrumentos essencialmente brasileiros. Não tem nada elétrico na banda.

Aiace: E o contraponto é o uso do cello, que alude mais à universalidade da música. Boa parte das coisas que fazemos lembram um pouco da onda medieval.

Anderson: Por conta da herança ibérica do sertão, um povo formado a partir do índio, do negro, do espanhol e do português. Lá, como a televisão e a internet chegam depois, as tradições – desde a culinária até o sotaque, ficam muito preservados. Ouve-se muita melodia de Portugal, do terreiro, que ainda está muito guardado. Um diamante bruto. E essas melodias ficam com o cello. E isso tem muito de Elomar, que nos influenciou muito no começo.

E agora, o que influencia?
Aiace: Elomar (risos). Até porque a gente tem um ano de banda.

Anderson: A ideia da gente era a de fazer um grupo de câmara, no estilo de Elomar: percussão, cello e voz. Só uns efeitos de percussão, na verdade. Mas a partir do convite para ir a Portugal, a coisa foi crescendo.

Aiace: Inclusive, foi a nossa primeira apresentação (risos). Inauguramos em Coimbra e depois Lisboa.

Anderson: Aí tínhamos também vontade de fazer coco, maracatu. Então, aconteceu naturalmente.

O que vocês acham de tocar aqui? Como está sendo? Vocês já fizeram um show, né?
Anderson: Foi em uma festa fechada, então não era o público do cenário alternativo de música no Brasil. Era um pessoal mais ligado a moda e design. Mas tocar em São Paulo é muito bom. Na terça-feira (25), inauguramos uma fase muito importante pra banda, porque tocar aqui é um divisor de águas pra bandas no início de carreira.

Acho que quinta, no Zé Presidente, vai ser a grande data porque o público vai ser mais parecido com o nosso. Vamos dar de tudo, pra quem sabe as portas abrirem, e a gente começar uma nova fase. Então, essa estética mais moderna do sertão que as pessoas têm ideia aqui no sudeste, foi construída a partir de Luiz Gonzaga. Ele é um dos grandes músicos pop do Brasil. As pessoas conhecessem o sertão que ele formatou, e existe uma outra realidade que não está no gibão de couro, na sandália de dedo. Vai além disso.

Aiace: É um sertão que o Brasil só revisita nas festas juninas, né.

Anderson: Ficou muito marcado: acordeon, zabumba, triângulo. E o Sertanília vai um pouco antes de Luiz Gonzaga, nossas músicas são inspiradas em cantigas e melodias de domínio público, que ninguém sabe de onde vem.

Aiace: É de antes, mas por eles manterem esta cultura viva, é de agora também. Por isso que eu acho que não vale só visitar a cultura do sertão na festa junina. O sertão é todo dia, e ele não é só forró e baião. Ele precisa ser redescoberto, principalmente pelos jovens.

Não é um projeto meio difícil esse de querer tornar pop a música mais tradicional?
Anderson: É complicado. Você vê que as pessoas compram discos de blues antigões, mas não compram o de um terno de reis, que tem cem anos de tradição, com os velhinhos. Qual é a diferença? A gente pesquisa a partir de músicas de anciãos, pessoas de 90, 100 anos de idade. E eles cantam músicas que os avós ensinaram pra eles, então elas são bem antigas. O Brasil tem isso e ninguém sabe, ninguém vê.

Aiace: Mas o legal é que, pelo menos em Salvador, temos uma resposta positiva. Tem um público muito jovem ouvindo, curtindo, mostrando pra outras pessoas. Eu não acho que seja um projeto tão difícil.

Anderson: Salvador está passando por um momento muito especial, com pessoas muito talentosas. Compositores brilhantes, como Silvio da Quarteto de Cinco, Tiago Kalú, que era do Clube da Malandragem, Pietro Leal da Pirigulino Babilake. São mentes efervescentes, um momento muito interessante. A gente está muito contente de estar nessa cena, fazendo parte disso. É uma pena que não tenha tantos lugares pra tocar.

É verdade, vocês tem ideia do por quê?
Anderson: Eu não sei, é fácil falar quando você não é dono do negócio. Mas teve uma questão muito séria que aconteceu no Boomerangue [antiga casa de shows e festas de Salvador], dos assaltos. Piorou muito a questão da violência em Salvador nos últimos 5 anos, e isso se refletiu lá. Eram 5 assaltos por semana dentro do estabelecimento. E ninguém ficava sabendo porque foi muito abafado, não chegou no grande público.

Anderson: Salvador tá passando por um momento muito legal na cena alternativa. Embora os “inferninhos” sejam poucos,  é uma das cenas mais profissionais que a cidade já teve.  Digo no sentido de que as bandas pequenas se preocupam em fazer site, flog, postar vídeos, cuidar do público com as redes sociais.

Aiace: E a qualidade dos materiais, né.

Anderson: Bandas novas surgindo já profissionais. Quando vão tocar levam roadie, técnico de som.

Que bandas, por exemplo?
Aiace:
A Quarteto, a Acord, a Pirigulino Babilke também. Quem movimenta o cenário alternativo.

Anderson: A Neologia mesmo. Já tem três clipes. O pessoal está se profissionalizando bem mais cedo agora.

Aiace: Hoje, com a decadência do mercado fonográfico, a gente é que se vira. O artista se auto-gere.

Lá em Salvador, vocês geralmente tocam onde?

Anderson: Quase em lugar nenhum (risos).

Aiace: Tem o lance da falta de estrutura. Então, são poucas as opções de lugares. E quando tem, são espaços muito pequenos, que não têm uma estrutura de som bacana.

Anderson: Não optamos por pegar uma temporada numa casa e tocar toda sexta. A gente decidiu fazer de vez em quando, e que façamos disso um espetáculo de uma hora e meia, duas horas. Quisemos essa profissionalização desde o começo, e tem sido interessante, por que as pessoas perguntam “e aí, quando é que vocês vão tocar?”, ficam cobrando.

Aiace: Participam mais, escrevem mais pra gente. E nós acabamos tocando mais fora.

Em que lugares?
Aiace: Feira de Santana, Vitória da Conquista, vamos fazer o Festival DoSol em Natal, e Salvador dia 11 (de novembro).

Anderson: Fomos também pra Espanha, apresentamos no festival TenSamba, que acontece na rua, é um dos maiores festivais de música brasileira na Europa. Foram artistas quase de todo o país.

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