Mariana Aydar: 'todo CD é um parto'

Muito animada ao colocar o CD “Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo” à venda, nas lojas, Mariana Aydar era só alegria ao falar do terceiro disco, que ela mesmo disse: “o bichinho tá finalmente na rua”. Minutos depois, essa citação ganharia ainda mais efeito, quando ela comentou que “todo disco é um parto”, apesar de ela ter achado este um pouco mais tranquilo que os dois primeiros. A cantora falou, por telefone, com o Aos Cubos na terça-feira (20), dia de lançamento do CD. Os primeiros a ouvir o material editado foram dois amigos, que ela falou que se emocionaram porque sabem que o disco é intenso e retrata a atual Mariana.

Apesar de ser um disco permeado de regravações, a paulista assina letras e melodias – destaque para a faixa-título e releituras de Caetano Veloso, com “Nine Out of Ten”, e “Vai Vadiar”, que ficou conhecida na voz de Zeca Pagodinho. Mariana contou que é “bicho do palco” e se anima com o planejamento da turnê de divulgação do álbum, que deve começar em novembro. Ela está começando a pensar nas possibilidades, uma vez que “o show é muito legal para expandir o disco”. Para os palcos, ela pretende levar a mata selvagem que compõe o disco, e colocará isso nos cenários e iluminação. A morena se apresentou nesta sexta-feira (23) no dia de abertura do Rock in Rio e volta ao palco neste sábado (24) para cantar com Snow Patrol.

O disco começou a ser composto logo que saiu “Peixes Pássaros Pessoas” (2009). “Nasceu muito dali, das composições, mesmo em estado bruto, aquelas (faixas) que não entraram continuaram servindo de guia”, disse ela, que se condidera uma compositora ainda em processo – uma vez que este CD é o segundo que ela arrisca ter canções assinadas. “Composição é um outro jeito de lidar com a música. É uma coisa mais mediúnica, está no ar e você tem que saber concretizar, saber botar a letra… É diferente de tocar, cantar, é algo muito mais legal. Esse disco esse é uma linha divisora para mim. Como se, daqui pra frente, eu fosse compor sempre”, completou na conversa-firula ao iniciar o bate-papo sobre o disco, que você confere a íntegra aqui:

Aos Cubos – Mariana, depois de dois CDs. Este terceiro é mais fácil?
Mariana Aydar – Eu gostaria de dizer que sim, mas não é. Acho que todo disco é um parto, mas de uma maneira boa. Esse foi na banheira, tranquilo. É um processo bem individual, de olhar para dentro, de ver o que você é e como aquilo se concretiza em música. O CD é o retrato de um momento que você está vivendo.

Apesar de o disco ter vários compositores, ele tem uma unidade: fala das idas e vindas do amor, fala de partida, solidão… Como você o classifica? Ele foi pensado nesse contexto, de falar do amor, mas não focando amor entre duas pessoas?
Mariana – Ele tem um amor dentro dele. Eu acho que é natural, não foi uma coisa pensada: ‘ah, vou falar de amor’. Tem os amores que eu acredito que estejam fora do convencional, tipo a música da Thalma de Freitas (‘quem feriu meu coração fui eu, mais ninguém. Quem feriu teu coração foi você’). A responsabilidade de quando você ama uma pessoa. As coisas acontecem muito por sua causa, e a gente acaba jogando a culpa para outra pessoa. Tem outro amor que se fala em “Passionais”, que eu canto há mais de 11 anos, desde quando era backing vocal do Dante Ozzettti. Eu acho que a partir das minhas composições, eu fui buscar quais eram as primas-irmãs para unir. “Não Foi Em Vão” dialoga muito bem com “Solitude”, e “Nine Out Of Ten” vai muito bem com “Floresta”. As duas falam de uma ânsia de viver: ‘o que você está fazendo da sua vida?’. Se questionar, se você está fazendo valer essa passagem rápida pela Terra.

A mesma unidade é sentida quando você o ouve. A batida dele vai aos extremos: de balada pop até xote. Mas ele passeia muito bem pelos dois universos sem causar estranheza para o ouvinte. Como foi a concepção do álbum?
Mariana – Acho que essa é a grande sacada do álbum. A gente colocou muita coisa que poderia dar muito errado juntas e que deram muito certo. Ele (o disco) tem uma unidade de banda, sonora porque teve uma pré-produção muito grande. Foram três meses nesse preparativo porque queria fazê-lo ao vivo. E a gente pegou essa coisa de banda, de tocar junto. Isso foi muito bom para a gente. Eu brinco que era o baú do cavaleiro. Porque a gente colocava tudo no balaio e isso se transformava em música já antropofágica, misturada. Como um fado, como o do Rômulo Fróes, que virou uma coisa meio da Bahia; “Vai Vadiar” virou algo mais vanguardista, ao mesmo tempo que “Passionais” se transformou em pop. E um xote, como era o “Vinheta da Alegria”, se transformou em uma faixa totalmente experimental. “Eu Preciso do Teu Sorriso”, que era um xote, virou uma balada mais pop, melódica. “O Homem da Perna de Pau”, que era um forró se tornou carimbó. “Cavaleiro Selvagem…” virou um rap, meio funk… Mas tudo com essa unidade que foi dada por esse cavaleiro e pela banda, pelos ritmos. Essa é a pegada do disco: ‘ser eclético dentro de uma unidade bem forte’.

Adele, a maior voz pop internacional hoje diz que é movida a cigarros, vinho tinto e um coração eternamente partico. O que move Mariana Aydar?
Mariana – A vida, o amor… O amor no sentido universal, não apenas de homem e mulher. Isso não me move muito, apesar de ter bastante no disco. Todo esse amor que eu falo, ele tem um mistério por trás. Acho que o que me move na música é esse mistério da vida. Todas as minhas composições falam desse mistério. “Solitude”, “Floresta”, “Vinheta…” e “Cavaleiro…”. Acho que sou mais ligada ao existencial, e não material.

Você disse que “Cavaleiro…” veio pra ti quando estava em uma praia. Mas como foi isso? Em um sonho… Como foi o processo?
Mariana – Foi uma melodia que surgiu na minha cabeça. É bem assim que as composições rolam pra mim. Como se eu tivesse um radinho ligado e, quando sintonizado numa rádio, vêm as composições sem eu querer. Até aquela música do Paulo Cesar Pinheiro fala: ‘Não, ninguém faz samba só porque prefere…’. Essa música, como o nome entrega, fala do “Poder da Criação”. ‘Não precisa-se estar nem feliz nem aflito, nem se refugiar no lugar mais bonito em busca da inspiração, que ela vem de repente, é uma luz que chega de repente…’. Composição tem muito disso pra mim. E essa não foi diferente. Ela chegou dessa maneira, sorrateira, e ficou no meu ouvido, de forma curiosa. E não entendia direito o que era, aí quando percebi o conjunto, vi que era o nome do disco. Cavaleiro é uma metáfora, que simboliza a minha intuição, tudo aquilo que quero seguir: as forças da natureza, meu coração, a música em sua essência mais pura. E acho que tem uma coisa galopante, rítmica, que rege o disco todo. E que é muito legal… Tem muito a ver com o cavaleiro selvagem.

Para você, o Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz foi a alma desse disco?
Mariana – Ele foi um cara muito importante. Com certeza, esse disco a gente fez junto. Eu sinto que esse não é um álbum da Mariana, mas do Duani (Martins) – os dois produtores da Universal Music por trás do CD -, do Guilherme Held, guitarrista… Todo mundo pode colocar a sua musicalidade ali. E o Letieres… foi engraçado que, quando eu estava fazendo as composições, elas já nasciam com uma pegada meio afro-brasileira, africana, todas tinham esse ritmo por trás. Aí, quando encontrei com ele, em um show da Rumpilezz que chorei muito, tudo fez sentido. Falei pra ele: ‘não sei o que vou fazer, mas alguma coisa a gente vai produzir no futuro’. E fizemos um disco inteiro. Ele é um cara, um mago (da floresta do cavaleiro) pra mim, um elfo… Porque ele e o Duani conseguiram concretizar todas as minhas ansiedades.

Também podemos falar que Dominguinhos serviu de inspiração?
Mariana – Eu estou fazendo um documentário sobre ele (“Dominguinhos Volta e Meia”). Conviver com ele, mais do que a parte regional – até porque não é esse o foco do doc que é o Dominguinho universal – eu acho que ter convivido com a música dele, a genialidade e como ele lida com a música e com as pessoas… a sorte que eu tive em poder estar naqueles sets de gravação, vendo ele tocar com João Donato, Djavan, Gilberto Gil… Foi realmente muito inspirador. Ele não é a essência, mas serviu de inspiração porque estava naquele momento da minha vida.

Como você compara a Mariana do primeiro CD, Kafta (2006) com a evolução musical até chegar à atual fase, passando pelo “Pássaros…” (2009)?
Mariana – Não tem nenhuma coisa que eu me arrependa, até porque os discos foram sinceros no seu momento. Mas eu acho que, realmente, há uma grande evolução. Até pessoal… porque, quando você se expõe, você mostra aquilo que está sentindo. E música é uma exposição muito grande porque você mostra a sua alma. Então, você ter coragem de fazer isso, já é um crescimento por si só. Você vai se relacionando com o público, as pessoas, e vai pegando a sutileza em se relacionar assim com cada um. E tudo isso faz você crescer, assim como a música e o meio profissional. Eu acho que é um divisor de águas. Eu sinto que estou entrando em uma nova fase da minha vida e da minha carreira. Me sinto mais segura e sabendo o que quero, disposta a experimentar…

Você morou fora do Brasil, em Paris (França)… E pode-se dizer que influenciou sua música?
Mariana – Ver o país de fora é muito bom para reavaliar tudo e conseguir analisar os defeitos e as qualidades. O que valeu de Paris foi ter conhecido muita música, muitos africanos… Essa minha aproximação com a música africana, que se concretiza nesse disco, ela está de uma maneira mais clara. Acho que isso é muito fruto de ter morado lá. Em Paris, a gente tem uma convivência real com os africanos em shows, no metrô, nas ruas… Eu fiquei muito amiga da Mayra Andrade, que é cabo-verdiana e me apresentou muitos cantores africanos. Expandir meu conhecimento musical foi a grande experiência de morar fora.

E quais cantoras você admira e têm relevância para você?
Mariana – É difícil porque são várias, mas posso dizer que Elis Regina me incluenciou muito… Björk é uma cantora que gosto muito. Clara Nunes, Leny Andrade, Maria Inês, Elba Ramalho, Cassandra Wilson, Norah Jones, Billie Holiday… tem muitas! A própria Mayra Andrade me influencia muito…

Como que os relacionamentos influenciam na sua música?
Mariana Eu não passo muito por aí… Por exemplo, eu tenho um personagem pra cada música. E acho que funciono a partir delas. Por exemplo, eu incorporei um personagem que cantou “Vai Vadiar”, outro quando cantei “Os Passionais”. Não, necessariamente, é autobiográfico. O que tem mais a ver com minha vida pessoal são as minhas composições, quando falo de assuntos existenciais. No amor, eu acho que tem muitas faces, então eu procuro – nas músicas de amor – dar novas possibilidades para as pessoas e não o padrão que a gente está acostumado a viver.

O que você costuma carregar no iPod? Ou onde que que você consuma música?
Mariana – Eu ouço música o dia inteiro. Música pra mim é o alimento da alma. É assim que eu vejo ela e é assim que gosto que a minha música seja para os outros. Minha missão é essa e levo isso a sério. Eu tenho fases. Agora, eu ‘tô’ ouvindo o novo disco do Fábio Goes, por exemplo… Gosto de ouvir a galera nova. Tem coisas que as pessoas me mostram e sempre volto para discos meio iguais, como Roberto Ribeiro e Simone. É um disco que sempre ouço. “Krishnanda”, do Pedro Sanches… “Elis & Tom”, de Tom Jobim com Elis Regina… “The Cello Suites Inspired By Bach”, do Yo-Yo Ma. …. Meu iPod vai variando conforme as novidades vão chegando. Eu gosto muito de ouvir as coisas novas.

Você lembra onde estava quando ouviu a primeira vez sua música?
Mariana – Não lembro… Engraçado, não me lembro disso. Mas até hoje é um pouco estranho ouvir minha música em algum lugar. Eu não gosto, fico um pouco desconfortável. Não sei explicar… Parece que, quando eu faço uma música, ela já passou. Eu até tenho uma dificuldade de levar uma música por muito tempo… Parece que quando eu cantei (no disco), ela nasceu e morreu…

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1 comentário

  1. A cada apresentação e entrevista, a Mariana me encanta.
    Gosto do jeito dela cantar, da voz e da maneira como trata seu lado musical.
    É de uma simplicidade impressionante. Há vi pela primeira vez em 2008, desde lá estou sempre acompanhando.
    E também fico muito feliz, pelo jeito carinhoso com que ela se deixa aproximar de seu público.
    Admiro muitos artistas, mas…alguns já deixei de admirar, pelo comportamento “estrela” e arrogante de ser.
    Adoro a cantora Mariana Aydar, mas…..admiro ainda mais a “pessoa”, ela é uma daquelas que dá vontade de conviver….ser amiga e estar por perto, é um doce de pessoa.
    Ouço música o tempo todo, o dia inteiro, meu ipad está sempre sendo renovado,mas…as músicas da Mariana estão sempre lá(desde o 1ºcd) rsrsrsssm, não me canso ouço todos os dias.
    Bom, é isso queria dizer mais uma vez o quanto essa cantora me encanta.

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