Natura Nós: música limpinha e público na lama

No último final de semana (dias 17 e 18 de outubro), aconteceu em São Paulo o Natura Nós, mais um festival saído dessa onda (muitas vezes hipócrita) de eventos ancorados em ideais ecológicos. O dia 16 contava com grandes nomes internacionais, como o do duo francês AIR e as bandas britânicas Snow Patrol e Jamiroquai – e mais um punhado de músicos nacionais de qualidade. O domingo foi destinado às crianças, com shows de Pato Fu, Pequeno Cidadão, Palavra Cantada e Adriana Partimpim.

 

 

Realizado na distante e campestre Chácara do Jockey, o festival tinha tudo pra ser um evento indolor e agradável com cheirinho de creme e de terra molhada. Tinha pessoas oferecendo protetor solar, hidratante à vontade, feirinha de produtos ecologicamente corretos pra salvar as tartarugas marinhas, tendas de alimentação com frutas, pipoca, sorvete e mesinhas de madeira a la cantina da escola… Lindo né?

Só não era nada linda a quilométrica pista VIP, que separava o público “comum” de ambos os palcos (um Azul e outro Verde, dispostos em lados opostos da Chácara). Essa distância fazia com que boa parte do público – já meio desanimado – ficasse apático durante quase todo o tempo, mesmo nas apresentações mais esperadas (Air, Snow Patrol e Jamiroquai). A distância entre o público e os artistas era literal. A pergunta que eu me fazia a todo momento era “O que essas pessoas vieram ver afinal?”.

Cheguei lá no meio do show do Cidadão Instigado, que tocava para meia dúzia de gente, que aplaudia por protocolo. Depois, foi a vez da enérgica Karina Buhr que, com letras interessantes e ritmo e presença de palco contagiantes, com certeza ganhou mais alguns fãs (eu incluso). Lá pelas 17h, Vanessa da Mata rodopiou, rodopiou, e tanto chamou a chuva que ela veio. Sem trégua e torrencial. Quase todo mundo saiu correndo pra se abrigar enquanto ela cantava Ai Ai Ai, e proporcionava catarse pra parcela corajosa do público que ficou pra tomar o tal banho de chuva.

O show foi encerrado às pressas e, meia hora depois, o céu ainda caía quando a cantora Céu subiu ao palco. Só quando parou de chover, lá pela metade do show, é que a galera se reuniu aos poucos e foi conferir a sua doce malemolência. Considerando que Céu está cada vez mais conhecida e respeitada no exterior, é sempre um privilégio ver um show seu por aqui.

Quando a primeira grande atração internacional subiu ao palco achei que era a hora da verdade. Não foi. O AIR fez um show impecável de sons vertiginosos para um público disperso, que reconhecia as músicas, aplaudia muito no final, mas que ficava o resto do tempo balançando a cabeça pra cima e pra baixo. O grande destaque ficou para o hit Sexy Boy. Depois do AIR, o Móveis Coloniais de Acaju se apresentou com direito a flashmob dos fãs e chuva de papel picado.

O show do Snow Patrol começou com a banda mandando de cara Open Your Eyes, sua música mais conhecida no Brasil. O repertório viajou bem entre os últimos três CDs da banda (Final Straw, Eyes Open e A Hundred Million Suns) dando um destaque no mínimo inusitado ao cd Eyes Open (6 das 13 músicas) e surpreendendo os fãs com músicas como How To Be Dead e Make This Go On Forever. Falante, o vocalista Gary Lightbody agradou os fãs, que saíram satisfeitos, apesar de o show não ter empolgado o público tanto quanto poderia.

O show do Bajofondo foi uma boa ligação entre as duas atrações mais esperadas da noite. Com o seu “tango eletrônico” intenso, só deixou parado quem não queria dançar mesmo. E, quando o Jamiroquai finalmente entrou no palco, já depois das 23h, deu pra ver que boa parte das pessoas estava ali só pra ver mesmo o elétrico Jay Kay tirando do cocar os grandes hits da carreira do Jamiroquai, como Revolution e Love Fool.

Depois de enfrentar um lamaçal pra sair da Chácara do Jockey e do estacionamento (fruto de um pouquinho de negligência com uma pitadinha de desrespeito com o público), ficou claro – pra mim – que cada um daqueles shows seriam muito melhores em lugares menores e só com fãs, mas que o lado bom de um festival é justamente dar a oportunidade conhecer artistas que você não veria normalmente, e que se você tiver sorte, vai poder ver de novo em condições melhores (e sem uma dúzia de Vips desanimados à sua frente).

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