Transgressões musicais

O ator Wagner Moura, além de jornalista formado pela Faculdade de Comunicação da UFBa, canta. Sua banda – espirituosamente chamada de Sua Mãe – é composta por ex-colegas da faculdade. Em maio último, lançaram o primeiro CD, intitulado The Very Best Of The Greatest Hits Of Sua Mãe, com shows em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

O curioso dessa banda não é só ter Capitão Nascimento como vocalista: a Sua Mãe mistura The Smiths com Reginaldo Rossi, The Cure com Odair José, Radiohead com Wando. E dá certo. O som é pop, acessível, e a voz é marcante – o que é um ponto comum em todas essas referências dos anos 1980 e início dos 1990 e da música brega (a qual Wagner prefere chamar de “música superpopular brasileira”).

O apelo kitsch à emoção, aos sentimentos, também é característico de todos eles, como podemos perceber tanto em “seja meu amigo / me bata, me prenda / faça tudo comigo / mas não me deixe ficar sem ela” de Rossi quanto no “you’re so very special / I wish I was special / but I’m a creep” do Radiohead.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5LQEXNqfip0]

Outros artistas também propõem essa experiência de perda de preconceitos. O carioca João Brasil, formado na Berklee College of Music e atualmente cursa mestrado em música em Londres, cria músicas para dançar através de mashups (misturas mediadas pelas tecnologias digitais) de música.

A partir de uma base de funk carioca, por exemplo, ele mistura Rolling Stones, Mc Sapão, Michael Jackson, Daft Punk, Nirvana, Tati Quebra-Barraco e muitos outros. O baiano Tom Zé, por sua vez, usa elementos da música erudita para estudar gêneros como o samba, o pagode e a bossa nova.

É possível afirmar que a música provoca experiências fundadoras no homem? Aristóteles, em seu sistema trágico coercitivo, propunha que a Tragédia grega funcionasse como uma forma de moralização da sociedade. O público, ao acompanhar a trajetória de um personagem com uma falha moral, catarticamente se enriqueceria com essa experiência, de modo a não agir senão segundo a forma costumeira, prevista pelas leis, sob o risco de ter o mesmo fim trágico de um Édipo, cego e sem a sua amada.

Proponho aqui observar uma vivência análoga na música popular, não de modo coercitivo – obviamente este tipo de música de Tom Zé, João Brasil e Wagner Moura está muito mais para transgressor do que para conformador – mas como uma forma de sensibilização artística para um questionamento das padronizações culturais.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pt5h_g1MRu8]

No limite, a questão trata da interação entre obra e espírito, e pergunta o quanto dela é cognitiva e o quanto é estética – proposta que se aproxima, em certos aspectos, da arte conceitual. Suscita a dúvida se, a partir da compreensão da intenção e do contexto da obra – no caso de um funk carioca, por exemplo, se entendido como expressão rítmica e performática do corpo e da situação social dos morros cariocas; podemos passar a apreciá-lo ou se há um limite estético nisso.

Mas, sobretudo, quero dizer: será que uma postura amigável no ouvir bandas como Sua Mãe podem provocar uma nova compreensão do brega, que é um gênero tão estigmatizado mas pouco pensado como experiência estética? Será a intolerância a certos estilos musicais uma reprodução num universo micro dos choques identitários entre indivíduos formados em campos sociais, culturais, econômicos e políticos diversos?

É necessário perceber que, além de conceitual ou formalista, a percepção da arte tem um viés social. Pierre Bourdieu nos esclarece muito dessa questão ao chamar atenção para a dimensão social do gosto, isto é, que muito da nossa fruição estética e cognitiva está relacionado com o jogo social de aparências, de posições de poder e de distinção cultural, e que devemos perceber essa relação para poder questioná-la sempre que quisermos.

Trata-se de reavaliar preconceitos que são herdados sem nenhuma contestação, de pluralizar identidades ao invés de apenas reforçar as já dadas, de saber por que se legitima socialmente a bossa nova e não o pagode, o rock inglês e não a música superpopular brasileira.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=hubD31XaHqU]

Leia mais

Pogo: música eletrônica a partir de fragmentos sonoros

Não… Não estou falando daquele brinquedo idiota que serve de material pra uma vida saudável, uma videocassetada ou até mesmo um instrumento para uma obra artística.

Muito menos nos preocuparemos em escrever sobre aquelas rodinhas suicidas dos shows de punk-rock ou de um crepe de festa fantasiado de cachorro-quente que a wikipedia me mostrou.

Não, meninas e meninos, esse post é sobre o DJ Pogo. Se você o conhece, obrigado pela visita; se não, comece a se sentir feliz com a descoberta.

Sem revelar seu nome real, Pogo é um cabo-verdense de 22 anos que mora em Perth, capital da Australia, e começou seus experimentos na mixagem com o jogo “Music 2000” do Playstation. Pouco tempo depois, o rapaz descobriu o poder dos samples e teve como ferramenta de trabalho os softwares de edição: Adobe Audition e o FLStudio.

O reconhecimento veio na web a partir de 2007, quando seu trabalho Alice saiu do seu iPod para o YouTube. E, se não tivese sido tirado do ar por direitos autorais da Disney, já teria ultrapassado a antiga marca de 3 milhões de acessos – ano passado, com Up, ele fez freelance para Pixar e, esse ano, com Toy Story 3.

O material bruto dos seus experimentos são pedacinhos sonoros de filmes, músicas ou do cotidiano, que são rigorosamente selecionados, escutados e, quando necessário, modificados – “adiantar ou atrasar um compasso pode mandá-lo à mediocridade ou a perfeição”, diz em seu site oficial.

Enquanto a construção quase homeopatica das faixas podem durar dias ou semanas, os vídeos, entretanto são feitos numa media de dois dias. Alguns resultados estão logo abaixo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=TQuqeLBTetA]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=cBN-CAhOYQ0]

* * *

Pogo recomenda:

Experimente mais Pogo no seu canal oficial e não oficial do youtube e conheça-o melhor em seu site.

Leia mais

Um ano sem Michael Jackson em cópia, passinhos e homenagens

Todo mundo já sabe que, há um ano, Michael Jackson deixou um vazio no mundo pop. Ele encerrou um reinado para ficar eternizado, e um legado para as gerações seguintes.

Para o resto da vida, você vai se lembrar onde estava e o que fazia no anúncio de sua morte.

Nesse post, reunimos quem copiou o artista e quis homenageá-lo, fazendo versões para suas músicas e clipes.

  • ‘Baby’, de Justin Bieber, é cópia de ‘The Way You Make Me Feel’

Aquela velha história da conquista ‘pop’: o cara tá afim da mina, sai atrás dela, ela não quer nada, esnoba, ele canta e dança, ela cai na lábia… Veja o vídeo comparando os dois clipes na montagem do Portal R7:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=NaeRYCvUC1U]

  • Phill Collins e a paródia de ‘Black or White’ no clipe do Genesis

Em Black or White – que tem a participação do então ator-mirim Macaulay Culkin, Michael protagoniza dancinha ao lado de pessoas de diferentes etnias. Ele faz um solo desengonçado que não chega aos pés do momento #vergonhaalheia de Phill Collins e sua paródia no vídeo abaixo. A partir do minuto 4:16, Collins incorpora o astro e manda ver:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=uBhCiu3qLy0]
  • Pomplamoose deixa ‘Beat it’ mais indie

Esqueça a megaprodução do Rei do Pop. Imagine um clipe ‘bem feitinho’, produzido em casa, e ainda assim surpreendente. A banda Pomplamoose, da vocalista Nataly Dawn (mescla de Dido com La Roux) conseguiu deixar ‘Beat It’ numa versão mais lenta pra indie nenhum botar defeito.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=meT2eqgDjiM]

  • Presos e Garner  fazem coreografia que revolucionou o videoclipe

Só no upload original, o vídeo de ‘Thriller’ que reúne 1.500 presos filipinos – e seus uniformes laranjas – já foi visto por 42 milhões de pessoas ao redor do mundo. Baita homenagem! Mas há uma cena de filme que me marcou mais do que ver essa galera toda reunida.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=hMnk7lh9M3o&feature=player_embedded]

Há uma cena em “De repente 30” em que a personagem de Jennifer Garner chama um povo pra dançar, e muita gente fica com vergonha porque sabe a coreografia. (Ê geração Anos 80!)

E faz pensar: foi com base nesses passos que  artistas pop da atualidade, como os Justins Bieber e Timberlake, Britney Spears, Madonna e Lady GaGa se inspiram e trazem, em cada clipe, novas danças – que depois viram diferentes virais pela internet e motivo de premiação em canal brasileiro.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=hhbYxXg7p-A&feature=related]

Leia mais