2º dia do Rock in Rio: os maiores shows alternativos que o Brasil já viu?

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Quando o Muse veio ao Brasil em 2008 para tocar no Rio e em São Paulo para aproximadamente 5 mil pessoas, parecia surreal a ideia de que em 5 anos eles voltariam como headliners de um festival para 85 mil pessoas. E essa ideia ainda parecia bem surreal pra mim no próprio dia 14, segundo dia do Rock in Rio 2013. Não que a banda não tenha competência pra isso, pelo contrário: o Muse é uma das poucas bandas contemporâneas que enchem facilmente estádios ao redor do mundo. Mas esse sucesso está longe de se repetir no Brasil. É difícil pensar que um festival com exatamente a mesma line-up (30 Seconds to Mars, Florence + the Machine e Muse) venderia metade dos ingressos se fosse feito em São Paulo com outro nome. Por essas e outras foi com imensa surpresa – e provavelmente causando inveja nos organizadores de alguns festivais voltados ao público alternativo que andam mal das pernas – que vimos os 85 mil ingressos do segundo dia do Rock in Rio se evaporando em minutos.

[alert type=”info”]Fotos: Galeria G1[/alert]

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Pelo menos uma das minhas suspeitas se confirmou no dia 14: o show do Muse não foi o mais assistido do dia. Coube a Florence + the Machine encher completamente o espaço em frente ao Palco Mundo: Florence segurou o público que assistiu os shows do The Offspring e de Marky Ramone no Palco Sunset, envolveu o público que esperava o Muse (e que por também serem do mesmo balaio de música indie, conheciam suas músicas mais famosas), e agregou o público do 30 Seconds to Mars que cantava todas as músicas da banda de Jared Leto, mas não saiu da pista depois do show cheio de firulas do ator/cantor/semi-deus wannabe. Para o meu desespero e dos meus amigos que esperavam um alívio depois do show do 30 Seconds to Mars, o ambiente ficou ainda mais sufocante e o respiro só veio mesmo depois do show de Florence.

Trocando as line-ups esquizofrênicas da edição de 2011 por decisões mais coerentes, a organização do Rock in Rio acertou em cheio. Só não consegui escapar do Capital Inicial, que também tocou no único dia que vi da edição de 2011 do Rock in Rio. Pelo menos dessa vez, optei por ouvi-los só de longe e fiquei na Rock Street, espaço meio parque de diversões dedicado a pequenos shows e lanchonetes, acompanhando um show (quase performance na verdade) da banda Terra Celta. O Rock Street dessa edição tinha como tema a música britânica e irlandesa de raiz, por assim dizer. O show no pequeno palco entreteve um bom número de pessoas que decidiu parar por lá, e teve até cover de Flogging Molly e de “La Valse d’Amelie”, da trilha sonora de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”, transformada em música celta pra formar um grande círculo de pessoas girando.

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A banda norte-americana 30 Seconds to Mars muitas vezes é definida como rock alternativo, mas o apelo tanto das músicas, quanto dos clipes, e principalmente do líder Jared Leto é bem pop. A banda optou por fazer um setlist pequeno e dar bastante tempo para performances, incluindo aí o imenso tempo gasto em todo o processo que levou Jared ao topo da tirolesa da Heineken, onde apresentou uma versão acústica de “Hurricane” e do começo de “The Kill”. Enquanto ele subia na plataforma, dois acrobatas pulavam em uma espécie de gangorra no palco. A banda não precisava ter apostado tanto no espetáculo porque o repertório agradou muito e todas as músicas eram muito comemoradas. Tanto tempo gasto com supérfluos fez vítimas: a ótima “Kings and Queens”, que estava na setlist, não foi tocada. E pra quem tem dúvida do objetivo da banda, flashes rápidos no background do palco comprovavam em caixa alta: “THIS IS A CULT”.

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Florence Welch voltou ao Brasil pouco mais de um ano e meio depois de ter vindo para o finado Summer Soul Festival e ainda na turnê do “Ceremonials”. Pra todos que estiveram no show anterior não eram novidades a sua potência vocal e o seu domínio de palco, mas a falta de novidade também na setlist – praticamente igual a do ano passado – tirou um pouco do brilho do show. O único acréscimo ficou por conta de “Drumming Song”, que tinha sido “esquecida” da outra vez. E infelizmente, um interessante acréscimo recente na sua turnê (a música “Sweet Nothing”, de Calvin Harris e cantada por Florence) também não deu as caras por aqui. Valeu por ver Florence num palco que é do tamanho de sua grandeza, e alguns momentos emocionantes como Florence derramando algumas lágrimas visivelmente sinceras em “Cosmic Love”.

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O Muse tem um repertório vasto o suficiente pra fazer um show diferente toda noite se quisesse, e como headliners do Rock in Rio optaram sabiamente em não dar tanta atenção para o irregular último álbum “The 2nd Law” como vinham dando nesta turnê. Mesmo que o álbum ainda tenha sido o protagonista da noite é visível a diferença da força entre canções como a pomposa “Supremacy”, que iniciou o show e que parece saída de um disco do Within Temptation (imagine a Sharon del Adel cantando, é um ótimo exercício) e as que vieram logo em seguida: “Supermassive Black Hole”, absurdamente comemorada, e “Hysteria”.

Matthew Bellamy é um músico extraordinário, mas não foi todo mundo que comprou os “progressivismos” que o Muse carrega tão bem, e a Cidade do Rock esvaziava muito e a olhos vistos. O show, muito bom como um todo, sofreu com momentos fracos como “Liquid State” e “Unnatural Selection”, péssima escolha do álbum “Resistance” (que só contou com duas músicas na setlist) e que parece uma cópia mal feita de “New Born”, música do álbum “Origin of Symmetry” que é infinitamente melhor.

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As melhores surpresas foram a execução de “Stockholm Syndrome”, que não vinha sendo tocada na turnê e que faz uma imensa falta em um show do Muse; o cover de Nina Simone “Feeling Good”, e o lado B “Agitated”, acessível e bom pra lembrar a todos o passado garageiro e menos megalomaníaco do Muse: megalomania essa que arrisca fagocitar a banda em breve. Na reta final, “Survival”, música tema das Olimpíadas de Londres do ano passado, ganhou uma performance ao vivo e vídeos de background que só vieram esfregar na nossa cara o que muitos já sabiam: a música é uma piada auto-consciente do começo ao fim. “Knights of Cydonia”, que iniciava a turnê que visitou o Brasil em 2008, encerrou o show no bis e teve seu potencial épico expandido pelo tamanho do palco, imagens western e o show de fogos que acompanhou o final da música.

A estrutura do Rock in Rio impressiona, apesar de muitos e visíveis problemas. Apesar da distância exagerada do centro da cidade (35 quilômetros!), o local se presta bem a ser um lugar para shows dessa magnitude. O sistema de transporte público funcionou bem pra mim tanto esse ano quanto em 2011, e é impossível pensar em algo tão grande e complexo dando certo em São Paulo, infelizmente. Mesmo com todo o perrengue financeiro e físico que envolve ir para o Rock in Rio não sendo carioca (esse ano só fui porque ganhei uma promoção da Rdio), ficarão em minha memória por bom tempo as lágrimas de Florence, o nem sempre muito simpático Matthew Bellamy totalmente entregue ao público e cantando com uma bandeira do Brasil cobrindo o rosto num momento meio Magritte, e o belíssimo por-do-Sol que agraciou os visitantes da Cidade do Rock naquele sábado não tão roqueiro assim.

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