"Sem medo de ser triste. A tristeza não é feia", afirma Mariana Aydar

Mariana Aydar está de CD novo. Mas não é um disco que ela encare como de carreira, autoral, apesar de ter faixas inéditas. “Pedaço duma Asa” (Brisa/Pommelo), de universo próprio, era um projeto especial, chamado “Palavras Cruzadas” e organizado por Marcio Debellian, em que ela interpretava as músicas de Nuno Ramos. E foi daí que resultou o processo inverso: começou nos palcos e só depois maturou no estúdio.

A densidade poética de Ramos é sentida nesse álbum em que se fala muito de sol, mas não tem nada de ensolarado (sinônimo de alegria). É uma das características do trabalho, segundo a cantora. “Não temos medo de ser tristes”, diz, fazendo contra-ponto à crença popular. “Hoje, no Brasil, está instaurado de que as coisas precisam ser felizes, precisam dançar… Nas músicas do Nuno, a poética não é ensolarada. Mas a tristeza não é feia”.

A cantora paulistana crê na beleza da tristeza. “Acho que faz você ficar humilde, é um passo muito importante até para a felicidade acontecer. É um contraste, como aquela música do Lulu Santos: ‘Não existiria som, se não houvesse o silencio’. São emoções que passam… A gente quer ser feliz, não triste. Mas tem que passar por isso, às vezes, pra conquistar a felicidade de novo”.

Foto: Simone Elias
Foto: Simone Elias

Em seu mais recente trabalho solo, “Cavaleiro Selvagem Aqui Te Sigo” (2011), Mariana havia dito que foi um parto conceber o trabalho. Hoje, dois anos depois de ter tido Brisa, sua filha com Duani (marido e parceiro musical), ela volta a fazer a comparação: “esse parto (do CD) foi o mais normal e humanizado possível. Foi muito tranquilo. Não sei se foi porque eu tive a minha filha, que foi mais punk, mas foi bonito e com muito amor”.

Esse projeto, segundo Mariana, a assaltou como uma paixão e, quando viu, estava com um disco na mão. “Eu, o Duani e o Guilherme Held (guitarrista) começamos linguagem musical ali (em ‘Cavaleiro’), mas tinha mais a explorar. E casava muito bem com as músicas do Nuno. As composições dele têm um DNA de samba. E eu não queria fazer um samba tradicional. Adoro mexer nos alicerces, sem mexer com a alma”, explica.

Foi seu disco mais “gostoso”, diz ela. As faixas com composições de Nuno estavam rolando em seu iPod, faixas de seus dois últimos discos que ficaram de fora. “E eu estava com aquele repertório ali comigo, amando, ouvindo e reouvindo. Já estavam prontas quando fiz o show, e já eram músicas que queria cantar pra sempre”.

Foi gravado em um estúdio em sua casa, em Pinheiros, São Paulo. “Podia gravar a hora que quisesse com Duani, que é meu companheiro e parceiro de música há 10 anos. Houve também um depuramento dessa linguagem que a gente estava criando, com nossa filha ali em cima, foi muito fácil. As letras e arranjos vieram de maneira super fácil, tudo bem tranquilo”, resume.

Com o CD na rua, ela prepara uma turnê que começa em 1º de outubro, em Belo Horizonte (MG). Em 21 de novembro é a vez de São Paulo receber a nova versão das músicas de “Pedaço duma Asa”. Mais um músico se juntará à banda na estrada, mas a cantora ainda está buscando finalizar a produção: “não está sendo tão fácil, como imaginei”.

Foto: Mihay Freire
Foto: Mihay Freire

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NOVO CD AUTORAL
Como antes do processo ela já estava pensando em gravar um disco próprio, os fãs podem esperar novo material para 2016. “Agora vou voltar para esse trilho”, ri. “A maternidade, assim como neste, em que fala muito sobre a mãe, servem de inspiração”, explica, dizendo que Nuno perdeu a dele (2011) e ela virou mãe (2012).

HISTÓRICO
Mariana e Nuno se conhecem desde 2007, mas nem sabia que ele era artista plástico. Nem achava que ele era brasileiro. É dele o samba-fado “Atrás dessa amizade”, do disco “Cão” (2006), de Rômulo Fróes.

A primeira composição dele gravada por ela é “Carcará” para uma do artista, que ficou famosa na Bienal de 2010 por conta da polêmica envolvendo o uso de urubus. Além de Carcará, a instalação era sonorizada com trechos de “Bandeira Branca” e “Acalanto”.

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