Sem surpresas, Britney Spears começa despedida da residência em Las Vegas

ANDRÉ ALOI
Enviado especial a Las Vegas, nos EUA

No dia em que Lady Gaga assinou contrato para uma residência fixa em Las Vegas, Britney Spears iniciou sua despedida, nesta terça-feira(19.12), do The Axis, teatro do Planet Hollywood Resort & Casinos, que há pelo menos quatro anos se apresenta semanalmente, de forma intermitente. O último show acontecerá na noite de Réveillon, em 31 de dezembro de 2017. Em meio a boatos de que renovaria parte do show para acrescentar um número natalino, ela simplesmente seguiu o tradicional setlist, sem muita conversa com a plateia, mas com inúmeros atos de dança – em nada lembra aquela cantora de coreografias espanta-mosca que em 2011 visitou o Brasil com a tour “Femme Fatale”.

De pirotecnia, inúmeras trocas de roupa e chuvas de papel picado a voo panorâmico da cantora sobre o palco, o “Piece Of Me” encerra um ciclo de apresentações, das quais Britney pode se orgulhar. Com excessão de “Overprotected”, a maioria dos hits dançantes são contemplados. Em poucos anos, ela foi responsável por trazer de volta turistas jovens à cidade, antes tomada por uma faixa etária mais velha, que vinha atrás dos cassinos e dos clubes de strip-tease. Com isso, abriu caminho para que outras divas, como a própria Gaga, Jennifer Lopez (com quem reveza o Axis), Mariah Carey, Celine Dion e Cher. Outros artistas também vieram: Bruno Mars, Backstreet Boys, Ricky Martin, entre outros.

Quem não é fã jamais entenderá essa “nova” dinâmica de Britney de se apresentar, quase que no piloto automático, que em nada lembra aquela jovem destemida, que se jogava no chão, tirava a roupa, e chocava a TV mundial, seja dançando com uma cobra algina, seja beijando Madonna em uma premiação. Hoje, ainda que com auxílio do famigerado playback (única sobra daquela época), ela opta por um estilo “play safe” na performance. Em poucos momentos de interação, dos quais a gente já sabe o que esperar: “como vocês estão se sentindo hoje?”, “batam palmas para meus dançarinos” e “essa é a minha banda, façam barulho”. Nada novo sob o sol.

Mas quem paga de US$ 100 (ingresso mais barato e mais afastado do palco) até US$ 1500 (cerca de R$ 5 mil), com direito a ficar na área VIP (Golden Circle) e posar para uma foto no Meet & Greet, já sabe que isso foi o que sobrou de Britney depois do surto de 2007 e dos abusos de álcool e drogas com as contemporâneas Paris Hilton e Lindsay Lohan. Sem contar aquele rompimento dos ligamentos do joelho, que interrompeu a gravação do clipe de “Outrageous”, que depois nunca mais viu a luz do dia.

Antes de ser criado o Britney Day (comemorado em 5 de novembro desde 2014, quando recebeu a chave da cidade por essa conquista), ela sempre pareceu ter a cidade no coração: rodou produções marcantes na cidade, como o especial para a HBO, que deu origem ao DVD “Live From Las Vegas” (aquele em que ela está vestida de Elvis na capa), à icônica performance de “I’m a Slave For You”, no Billboard Music Awards, ambas de 2001. O clipe de “Everytime” também foi rodado aqui. Essa é a parte romântica.

Agora, vem a parte que interessa. Em 2011, a tour do álbum “Femme Fatale” faturou US$ 11 milhões, sendo a 11ª que mais faturou naquele ano. Agora, em Vegas, nesses quase quatro anos, ela faturou mais de US$ 130 mi. Há três anos, era estimado que o cachê dela, por noite, girasse em torno de R$ 770 mil, perdendo apenas para J-Lo, com US$ 865. Números que já devem ultrapassar o US$ 1 milhão por cada, devido ao sucesso.

Os próximos passos para Britney ainda são incertos. Há fãs-sites dizendo que ela rompe o contrato com a RCA (Sony Music no Brasil) para apostar em novas frentes musicais, fazer algo de vanguarda, ainda que o “FF” e o “Glory” sejam álbuns toleráveis, é algo que ela não se propõe desde o “Blackout”, de 2007. Depois, então, fazer uma turnê mundial e, daqui dois anos, retornar para mais uma fase de residência… Aos fãs, resta rezar.

Distante da epítome da adolescência, Britney – com seus 35 anos – vive seu melhor momento com o corpo, exibindo sempre que pode no Instagram – seja em desfiles de roupas caseiros ou em pequenos trajes, como biquínis e malha de academia. De dança, tirando a turnê de “Circus”, onde seus movimentos ainda eram intensos, os passinhos robóticos ainda conseguem fazer com que os fãs vibrem. O público normal fica: “nossa, mas ela não está fazendo nada mais que a obrigação”, enquanto os fãs defendem: “você viu isso?”. Vibram a cada passo. É só um ajuste de expectativas.

De voz… bem, a base pré-gravada é assimétrica. Tem coisa de hoje, tem gravação de 10 anos atrás, pelo menos. Não é uma critica, apenas uma constatação (e com propriedade para falar: acompanho o trabalho dela pela internet desde os idos de BritneyBrazil, do fórum de mesmo nome e de uma época que o Britney Brasil ainda não se chamava nem BritneyNow). Aliás, foi nessa época que comecei a escrever: tive dois fãs-sites em português. O primeiro era Britney 4 U, o outro Hot Britney, com os quais fiz muitas amizades, algumas delas para sempre. Não cabe aqui falar: em tal momento ela trocou de roupa, se jogou no chão, foi erguida pelos dançarinos, se incomodou com o cabelo (em vários momentos ela o joga para cima, desenrola do microfone, prende com chuquinhas)… Mas uma análise de quem – há pelo menos 15 anos – acompanha de perto o trabalho dela.

Falei, falei, falei… Mas não disse uma coisa básica: se gostei ou não do show. O André adolescente amou, realizou um sonho, sanou a vontade em nome de muita gente que faz parte da sua vida por causa da cantora: Mônica, Adriano, Jacque, Maíra, Dani… Quando mostrei um cartaz escrito “me leve ao palco”, ela apenas deu um tchauzinho tímido. Mas me senti conectado com ela. Não foi dessa vez nossa foto, mas é como se a Britney de quem eu fui fã, no início da carreira existisse em algum lugar lá dentro, enquanto alguém controla as emoções dela e ela não pode sair do eixo – aceitável para quem tem síndrome do pânico.

Para o jornalista de Cultura, a apresentação é um ótimo produto do entretenimento, não à toa levou prêmio de melhor show da cidade, com destaque para a interação dos telões em alta definição e figurinos impecáveis. Como conteúdo de entretenimento, melhor do que muitas das cantoras jovens, que fazem uma miscelânea e não contam uma historia. Aqui, tudo tem hora para entrar e sair de cena. Bom para dançar, curtir e beber algumas doses de drink!

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