Soko e Taxi Taxi!: solene e profano no mesmo palco (ao mesmo tempo)

Na última quinta (30), ocorreu a segunda parte do Festival Invasão Sueca (a primeira parte você confere aqui) com as apresentações da dupla Taxi Taxi! e da francesa Soko, justificado no flyer de divulgação do festival como “show de encerramento”. Nem precisava: ninguém pediu o dinheiro de volta por ela não ser sueca.

Quem primeiro subiu ao palco foi o duo Taxi Taxi!, formado pelas gêmeas Miriam e Johanna E. Berhan, que têm apenas 20 anos e dois EPs e um álbum (Still Standing at Your Back Door, lançado ano passado) na bagagem. Sem banda de apoio, Miriam assume o piano e Johanna a guitarra, e as duas se revezam e se complementam nos vocais. As vozes são delicadas e, mesmo nos momentos mais potentes, não chegam nem perto de soarem agressivas, criam uma harmonia quase transcendental.

Pode ser superficial definir o som delas como “romântico”, mas — principalmente neste show onde elas deixaram as poucas músicas mais animadas (como Big Old Trees) de lado — foi a principal impressão passada ao púbico. Músicas como While I Hold On To The Cliff e Same Side of the Moon são de deixar qualquer pessoa com vontade de abraçar quem estiver do lado. E, no meio do show, uma surpresa: Soko entrou para tocar bateria em três músicas, entre elas a excelente More Childish Than In A Long Time, de longe a melhor delas, e a também ótima All I Think Of (onde a bateria é indispensável).

O teatro do SESC Pompéia e a sua ótima iluminação, combinada com a disposição diferente do palco (que fica no meio de duas plateias, uma de frente para a outra), ajudou o show do Taxi Taxi! a ganhar um clima solene. Mas quando as gêmeas trocavam risadinhas e olhares envergonhados, ficava claro que são só duas adolescentes se divertindo fazendo música e imaginando o que vão contar pra família e amigos quando voltarem pra casa.

Depois entrou Soko (talvez mais conhecida por seu trabalho como atriz, e cujo único trabalho é o EP Notsokute de 2007). Por algum momento ainda conservou a quietude do teatro: tocou sozinha algumas músicas com diferentes violões e guitarras, cantando com uma voz que começou fraquinha (ela tossia a todo momento) músicas sobre morte, dor, abuso de drogas, sofrimento amoroso, e AIDS (sim, AIDS) com melodias que presumiam inocência e campos verdejantes. Depois entrou a banda de apoio com violinista e violoncelista e, de repente, o show virou uma grande festa folk liderada pela sueca francesa, no limite entre o muito legal e o completo descontrole – indo histericamente da bateria para a guitarra, afinando e reafinando tudo, tossindo, xingando, provocando a plateia e chamando gente pro palco.

Ela se recusou a tocar seu maior (único) hit I’ll Kill Her e disse que quem se sentisse ofendido com isso poderia ir embora e pedir o dinheiro de volta (mas que não garantia o dinheiro de volta). Soko convocava o público toda hora e os momentos mais divertidos foram os com participação do público, entre eles: I Wanna Look Like A Tiger (com duas meninas representando cada lado do público e “brigando” no meio do palco), Peanut Butter (onde Soko fundou a Igreja do culto à manteiga de amendoim) e It’s Fine If You Don’t Love Me (Go Ahead and Fuck Yourself) em que o público gritava empolgado “Go ahead and fuck yourself!” quando ordenado pela cantora. O detalhe é que, nesse momento, as inocentes gêmeas do Taxi Taxi! retribuiam o favor e faziam backing vocal para Soko, gritando justamente essa frase.

Depois de estourar o tempo do show, Soko foi praticamente expulsa pelas luzes acesas pelas pessoas da organização , que pediam para o show acabar. Mas continuou tocando, chamando uma multidão ao palco. Pra terminar, provocou  e perguntou se a polícia iria lá tirá-la algemada. Depois de tudo, só me resta provocar os suecos: precisaram chamar uma francesa pra encerrar sua festa? Se fosse vocês, não deixava barato ano que vem. Enquanto isso, aguardamos ansiosos pela próxima invasão.

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Encube-as pelo Myspace: Taxi Taxi! e Soko.

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1 comentário

  1. seu texto faz a gente sentir vontade de ouvir tudo que vc citou. eu juro que fiquei arrepiada ao ler a descrição do show da soko – ela, provocando plateia e polícia, me lembrou a janis que fazia a mesma coisa.

    e vc ta profissa em escrever crítica hem. adorei… se tem uma coisa q faz alguém querer ouvir um som, é uma descrição tão envolvente qto o próprio som. e vc conseguiu isso. vou baixar.

    beijo!!!

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