SoKo-SoKo bate-bate, SoKo-SoKo vira-vira

DE SALVADOR

Num sábado qualquer de setembro, estava eu no Rio Vermelho, em Salvador, assistindo uma apresentação de dança árabe e tribal, quando cansei e fui dar uma volta no bairro mais boêmio de soterópolis. Não encontrei ninguém para me fazer companhia, mas, encontrei uma galera gringa (com cara de Arcade Fire) comendo beiju – também conhecido como tapioca.

Não hesitei e perguntei: Do you guys need some help? E o único homem do coletivo deu uma resposta crua: No, thanks.  Não foi por mal, eles estavam acompanhados por um carioca fantasiado de vocalista do Gogol Bordelo. Como bom baiano, insisti: perguntei se eles eram de uma banda – responderam que sim – e retruquei com “onde e qual”; o mesmo rapaz com franja e camisa quadriculada me respondeu novamente: “french and hers, SoKo”,

Depois dessa resposta, óbvio que fui parar na mesa do boteco que se estendia por toda calçada “de” Cira (baiana de acarajé das mais famosas, que tem sua sede oficial no bairro litorâneo de Itapuã). De início, SoKo perguntou qual era meu nome e proferiu no ar: “dan-nylo”. Ri e ela disse, séria, olhando nos meus olhos: Could you repeat? “Danilo”, eu disse. “Dan-nilo”, ela falou. Fiquei surpreso com a precisão da pronúncia e ela sorriu. “Damn, you’re good!”, exclamei. SoKo ficou contente.

Conversamos sobre a vida, digamos, e todos falaram como bons franceses: o suficiente. Me contaram que não dormiram (por terem vindo de uma apresentação, no dia anterior, em Recife) e que gostavam de tapioca. Perguntei se tinham gostado de Salvador, se foram bem recebidos (por um anjo* carioca em Salvador…) e eles não gostaram muito da minha pergunta. Pulei e continuei a conversa com outro assunto, ignorando esse desconforto.

Falei que visualmente eles me lembravam o The XX (que eles não conheciam), o Arcade Fire (contei que por isso me aproximei deles, causando riso na mesa), Florence and the Machine… os franceses me disseram que o som da SoKo era calmo como o de Cat Power. “Deve ser bom”, pensei.

Aí, uma moça que toca com a solista me contou que a apresentação tinha sido um desastre, pois a plateia não fazia silêncio para escutar a música da banda – SoKo pediu, durante o show, “shhhh” algumas vezes; e a plateia baiana retrucou com muito “uuuuu”. Eu e o carioca explicamos que, provavelmente, as pessoas não entendiam as letras – que, segundo SoKo, era o que mais importava nas músicas.

Depois de algum papo, uma vendedora de amendoim voltou à mesa (logo no início, ela tinha deixado uns grãos em cima de um papel rosa) e me cobrou R$ 2 por miligramas que tinha beliscado. Falei que não tinha dinheiro algum comigo – e era verdade, e que eles não me conheciam para pagar pra mim.

Como boa baiana, ela se irritou. Como bom baiano filho da puta, retruquei que se fosse pra pagar, e se ela não tivesse sumido após deixar o petisco na mesa, eu não teria comido um caroço sequer. Ela permaneceu na mesa e então perguntei: você quer levar o que sobrou? Irritada, ela foi embora. O “anjo”, como bom carioca, não se meteu. Membros da banda, como bons gringos, não entenderam nada. Eu, como bom anjo não contratado, traduzi tudo para que entendessem o ocorrido.

Depois de mais algumas conversas, perguntei se podia escrever sobre nosso encontro do destino na mesa do boteco – eles disseram que sim. Eles pagaram a conta (não o anjo) e eu, que agora escrevo, concluo: daria um bom anjo contratado e toda essa história podia render uma música da SoKo, já que ela toca histórias musicadas e é vaiada na terra do axé. Pra mim, isso é justo.

* anjo é o nome dado ao profissional que se responsabiliza por uma banda, um grupo ou qualquer aglomeração artística em festivais.

***

Agradecimentos: Tiago Lima

***

Não sabe o som que SoKo faz? Olha aí:

O Luis Gustavo acompanhou o show dela em Sampa. Veja como foi:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *