Travis paga dívida com o Brasil e faz maior show da turnê sul americana

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Fotos: Jonathan BrandolliniFlickr

Os escoceses do Travis – filhos do Radiohead, pais do Coldplay e avôs do Keane por assim dizer – sempre tiveram uma aura meio loser e azarada em torno de si. Seja por causa do brit-pop melancólico que dominam com maestria ou por causa de acidentes trágicos na história da banda. Seja por sempre terem sido eclipsados pelos grupos que inspiraram ou ainda pelo fato de um dos seus maiores hits ser o hino loser “Why Does It Always Rain On Me?”. Os fãs brasileiros do Travis sempre compartilharam do azar impregnado na banda, e em 17 anos de carreira o grupo que já vendeu mais de 11 milhões de cópias e que já teve uma forte fanbase por esses lados nunca havia dado as caras por aqui.

E olha que não é a primeira vez do Travis na América do Sul. Em 2007 a banda fez shows na Argentina e no Chile em companhia do praticamente finado Starsailor, partindo de lá para o México e privando o Brasil dessa reunião de um gênero que aparentemente estava com os dias contados. Entre 2006 e 2013 várias bandas de brit-pop terminaram ou entraram em hiato por tempo indeterminado, como foi o caso do próprio Travis e do Starsailor. Boa parte das bandas que continuaram na labuta mudaram completamente seus rumos sonoros (Keane, Snow Patrol…).

travis5-bFoi com grande surpresa que o Travis ressurgiu das cinzas em 2013 com o excelente álbum “Where You Stand”, em que resgatam a qualidade melódica da época do álbum “The Man Who” (1999), e tentam reencontrar seu espaço entre fãs que já se esqueceram deles e um mundo em que as pessoas não ligam muito mais pro tipo de música que eles fazem. Foi com mais surpresa ainda que, logo ao começarem a turnê do novo álbum, anunciaram uma turnê sul-americana que finalmente incluiria o Brasil. Mas lembra do azar?

O quase clássico porém cambaleante Festival Planeta Terra foi o responsável por trazer Travis, Beck e Blur esse ano para o Brasil, um trio importantíssimo do rock alternativo dos anos 90-começo dos anos 2000. E também trouxe a dondoca de carreira recente e talento absolutamente duvidoso Lana del Rey. Enquanto Beck reinou no Palco Alternativo e o Blur tocou depois de Lana no Palco Principal, o Travis foi escalado (não só em São Paulo, mas também em Buenos Aires e em Santiago) para tocar antes de Lana del Rey. Ela arrastou multidões de adolescentes fanáticos de 16 e 17 anos ao Planeta Terra, gente que tinha 4 anos de idade quando o Travis estourou mundo afora com o mega hit “Sing”. Se sentiu velho agora?

A grade horária sem pé nem cabeça teve como maiores vítimas os fãs do Travis, já que havia fãs da Lana del Rey na fila para entrar no Campo de Marte desde a sexta dia 8. Sábado de manhã, dia do Festival, um forte grupo de fãs do Travis já se preparava para a batalha que seria assistir de perto os escoceses pela primeira vez. E valeu a pena: mais de uma hora e meia de show e 20 músicas que passaram por toda a carreira da banda incluindo surpresas como “Pipe Dreams”, “Slide Show” e a faixa bônus “Blue Flashing Light”, músicas que nessa turnê foram tocadas apenas em São Paulo.

travis4Talvez já cientes da dificuldade que seria tocar para uma multidão de fãs zumbis da Lana del Rey (quase mortos pelo calor), o vocalista de carisma infinito Fran Healy e o baixista de sorriso infinito Dougie Payne ficavam visivelmente felizes toda vez que viam alguém cantando suas músicas (alguns fãs do Travis conseguiram chegar na grade). Ao vivo o Travis adiciona muito mais peso às músicas muitas vezes delicadas, e nessa tarefa é essencial o trabalho do guitarrista Andy Dunlop, como nos riffs espertos de “Selfish Jean” que ganharam várias texturas novas e na parede sonora formada no clássico sofrido “Turn”. Andy tocou o show inteiro como se sua vida dependesse disso, e fazia isso vestindo um suéter embaixo de um Sol de mais de 30 graus. Às vezes ele ficava tão vermelho que aparentava passar mal a qualquer momento.

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A voz de Fran se manteve bem ao longo dos anos e ouvir ao vivo o falsete de “Closer” foi de arrepiar qualquer alma viva (uma pena ter tanta gente morta na plateia). Mesmo desconhecidos pela maioria das pessoas ali, a banda se esforçou muito para empolgar os presentes, e as excelentes melodias deixaram meio caminho andado pra tarefa ser concluída. Os sucessos “Sing” e “Why Does It Always Rain On Me?” (onde a banda pede para que as pessoas pulem no refrão) causaram uma pequena comoção e levaram vários fãs da Lana del Rey pra ambulância. O clima de fim de tarde combinou muito com o show (a banda tocou das 17:30 até um pouco depois das 19h), e ouvir uma versão acústica de “Flowers in the Window” no pôr do sol onde os quatro tocavam o mesmo violão ao mesmo tempo foi inesquecível.

E como nem só de azar vivem os fãs brasileiros do Travis, os sortudos que estiveram no Planeta Terra tiveram o privilégio de ver o maior show da turnê sul-americana. Na Argentina, a apresentação também relegada a show de abertura da Lana del Rey, teve sete músicas a menos e estava bem mais vazia. No fim do show em São Paulo, Fran prometeu que o Travis não demoraria mais 17 anos pra voltar, e eu como bom fã azarado, ainda não sei se acredito.

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