Tulipa Ruiz: show de lançamento do novo disco passa pelo impecável, o incrível e o quase imperdoável

 Fotos de Pedro Vilhena retiradas do flickr Natura Musical

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Durante a turnê de seu primeiro disco, “Efêmera”, ficava claro existir a Tulipa do disco (com ótimas canções mas cuja produção às vezes esbarrava na imaturidade), e a Tulipa ao vivo, superior a primeira e que expandia o disco a níveis estratosféricos. Com o lançamento do excelente segundo disco, “Tudo Tanto”, ficou a dúvida se a Tulipa ao vivo conseguiria superar essa nova Tulipa do disco, já absurdamente grandiosa. A resposta é sim e não, o que por um lado é bom porque mostra que ela é um ser humano, e não uma entidade sobrenatural como eu cheguei a desconfiar. Por outro lado os tropeços da estreia são facilmente solucionáveis, e  há pouco o que separa a turnê de “Tudo Tanto” de poder ser o melhor show brasileiro da nossa geração. Tulipa emerge de uma cena dominada em sua maioria por uma mpb mumificada, uma música alternativa hermética e um rock nacional que compõe a mesma música há 20 anos, pega o que há de melhor em cada um desses lugares, mistura com referências internacionais de todas as épocas e pronto: estamos enfeitiçados.

Primeiro fato: praticamente ninguém que estava em um dos shows que aconteceram no Auditório Ibirapuera nos dias 7 e 8 de Setembro, viu ou verá em um bom tempo algo tão absurdamente/inacreditavelmente embasbacante quanto a performance de Tulipa para “Víbora“, penúltima música de “Tudo Tanto”, blues devastador que já arrepiava em estúdio com seus quase 6 épicos minutos de um mergulho num abismo emocional e de virtuosismo vocal. Não vou contar spoilers sobre esse trecho do show, mas a versão ao vivo supera sim uma música que já parecia ter nascido insuperável, e o fato do fim desta música ter sido mais aplaudido (e com mais intensidade) do que o fim do show, diz muito. Segundo fato: praticamente ninguém que estava em um dos shows viu ou verá em um bom tempo algo tão imperdoável numa apresentação ao vivo quanto destruir a atmosfera criada com a apresentação de “Víbora”, sucedendo-a com a (longa) rodada de agradecimentos colocados em cima do “riff-mais-feliz-do-mundo” de “A Ordem das Árvores”.

Se Tulipa fez isso de caso pensadíssimo, pra poder recuperar o fôlego e a alma depois de “Víbora”, qualquer música colocada na sequência ganharia automaticamente três vezes mais intensidade – consigo pensar em pelo menos 5 músicas que colocadas ali deixariam Tulipa numa situação hors concours. Mesmo uma música feliz seria uma opção interessante, o que assassinou o clima foram os agradecimentos. Como uma amiga minha disse depois do show: “Foi que nem num jornal, quando contam uma catástrofe e depois falam alguma coisa boba como se nada grave, nada importante tivesse acontecido”.

Concentrando todas as outras críticas nesse parágrafo para não alongar demais o post, foi equivocadíssimo o uso de dois flashes que além de piscarem fora do ritmo e fora de contexto, eram atordoantes e só funcionaram no trecho final de “Víbora” – também li uma crítica sobre os flashes numa resenha do show que aconteceu em Salvador uma semana antes, então resta torcer para que o artefato seja eliminado. Outra prática que deveria ser pensada é a repetição de músicas no final do show. Se na turnê de “Efêmera” eu torcia o nariz pra repetição (completa) da canção título que abria e fechava o show, mas relevava o fato pela falta de repertório, a repetição de DUAS músicas (“É” e “Quando eu Achar”) no fim deste show só poderá ser perdoada se for uma espécie de “comemoração” pelo novo disco. Além de banalizar as músicas, ainda deixa um gostinho amargo por termos deixado de ver na nova configuração da banda (que contou com 4 membros a mais) excelentes músicas do primeiro disco como “Aqui”, “Sushi” e “Brocal Dourado”.

Falando na “nova banda”, os velhos companheiros de guerra de Tulipa, o irmão Gustavo Ruiz (produtor dos dois discos, motivo pelo qual merece minha mais sincera admiração), o pai Luiz Chagas, o baixista/tecladista Márcio Arantes e o baterista Caio Lopes, ganharam o reforço de Luiz Gustavo Nascimento (violino), Renato Rossi (viola), Leandra Velazquez (violoncelo) e a já conhecida flautista Juliana Perdigão, para interpretar ao vivo os instrumentais arrojados de “Tudo Tanto” e acrescentar uma nova vida às canções de “Efêmera”. Não foi surpresa então que o melhor resultado dessa nova configuração tenha vindo numa canção de “Efêmera”, e não de “Tudo Tanto”: a devastadora (sim, eu já usei esse adjetivo lá em cima) “Do Amor”, meio cantada por Tulipa meio cantada pelo público, ganhou contornos gigantescos com os novos instrumentos. Usando a vibe cinematográfica que Tulipa canta no novo hino-cinéfilo-da-classe-alternativa-brasileira “Script“, foi como pegar um belo filme em 8 mm, e descobrir uma cópia em cinemascope. Senti um nó na garganta só de lembrar.

Também não dá pra encerrar o post sem elogiar o cenário em camadas, e as ótimas projeções que deram um passo adiante da simpática, mas distrativa esquizofrenia de algumas projeções do Efêmera. No mais, se você ainda não conhece “Tudo Tanto”, corra para o site dela onde o disco está disponível de graça em sua totalidade, mais um motivo dentre tantos para admirar Tulipa – e você vê mais um monte de motivos nesse outro post. Como nota final sobre o show, é de se aplaudir a coragem de Tulipa de lançar seu novo show num imenso auditório duas noites seguidas, mesmo que seja impossível colocar 11 músicas novas na roda automaticamente com o mesmo traquejo que as antigas têm. Todas as bandas/artistas sensatos que eu conheço inauguram suas novas turnês em espaços pequenos justamente para poderem errar antes de encarar um grande público. Ainda está fresca na memória o nível de domínio que Tulipa havia alcançado na turnê de “Efêmera”, então não há razão para acreditar que será diferente em “Tudo Tanto”. Esperamos pacientes cantarolando as músicas, correndo pra não ficar sem ingresso e torcendo por mais shows em pé.

[UPDATE]

 Estive presente no show que Tulipa fez dia 30 de Setembro no SESC Santana, e felizmente a setlist mudou e está bem acertada: agora “Cada Voz” encerra a primeira parte do show, “Víbora” fica super bem posicionada numa espécie de “limbo” entre o fim do show e o bis, que retorna com “Efêmera”. Os agradecimentos se concentram sobre o riff de “Brocal Dourado” antes do fim da primeira parte. Os flashes também funcionaram bem melhor e foi bom ver que o cenário em camadas parece ser itinerante e não fixo à grande estrutura do Auditório Ibirapuera como pareceu.

One thought on “Tulipa Ruiz: show de lançamento do novo disco passa pelo impecável, o incrível e o quase imperdoável

  1. Viajei 750 quilômetros pra vê-la de perto(pra ver se era de verdade. E é. Ela é demais!!! A Voz é espetaculaaaarrr!!E sua resenha é fantástica! Você não consegue disfarçar nem um pouco o quanto é fã. Parabéns!!!

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